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Educação na Periferia: a escola passada era melhor que a de hoje?

Especial Educação na periferia

Nesta edição especial do jornal O Bairro, entrevistamos o morador do bairro que é especialista na área da Educação. Trata-se do Professor Jefferson Peixoto da Silva, ex-aluno da Escola Municipal Dr. Habib Carlos Kyrillos e morador da região. Jefferson é graduado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP (2003) e em Pedagogia pela Universidade Nove de Julho – UNINOVE (2010), é também Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo – UNICID (2008) e Doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP (ingresso em 2014).

Professor Jefferson morador do bairro e Educador

O Bairro – Há um mito que muitos divulgam que o ensino nas escolas públicas era melhor entre as décadas de 70 a 90. Muitos que cursaram as escolas públicas nestas décadas nas escolas públicas da periferia afirmam que a educação era melhor em relação a de hoje. Isto é verdade? Por que?

Jefferson: A escola dos anos 70 a 90 funcionava com base em uma lógica muito distinta da de hoje. Naquele tempo, tanto a escola como a própria sociedade funcionavam a partir de uma lógica que era autoritária e simplificadora. Em função disso quem não aprendia era reprovado, quem não atendia a algumas regras mínimas como usar o uniforme, por exemplo, era proibido de entrar na escola e mais do que isso, quem não usava esse uniforme porque não tinha condições de comprá-lo ficava fora da escola, assim como o aluno que não aprendia porque tinha alguma dificuldade cognitiva, era tratado não como alguém que precisava de atenção especial, mas como alguém pouco esforçado e, assim, por repetir vários anos seguidos, mesmo indo todos os dias a escola, esse aluno com dificuldades acabava desistindo e não havia nenhum mecanismo para ir buscar esse aluno, que era tido simplesmente como evadido. A lógica era simples: quem não aprende do modo como a escola ensinava estava fora! Quem não tinha como seguir as regras estabelecidas também.

Do ponto de vista pedagógico, há ainda que se destacar que em muitas escolas daquela época, aprender era sinônimo de decorar e não de pensar, interpretar e/ou exercitar o senso crítico, até mesmo porque o método de ensino por excelência defendido pelos militares (que administraram o país entre 64-84) era o método mnemônico e, para eles, o papel da escola era preparar para o trabalho (em termos de tecnicismo) e pronto. Como, para eles, se preparar para o mundo do trabalho significava aprender a ter as condutas de obediência e submissão, o peso da obediência às regras e da formação de condutas era mais valorizado do que a aprendizagem cognitiva em si. O apreço deles pelo método mnemônico era um exemplo disso, pois em termos práticos significava o esforço rigoroso para fixado algo na mente. Quem decorava, portanto, demonstrava disciplina.

Em uma sociedade marcada pelo autoritarismo tanto quanto o pensamento militar defendia, não é de se espantar que tal método vigorou durante muito tempo mesmo para além das bases de pensamento militares. Basta então olharmos para este cenário e para as estatísticas educacionais daquela época (os índices de repetência, de evasão e de alunos fora da escola eram alarmantes, até porque não havia escolas para todos) para constatarmos que aquela escola não era melhor do que a escola de hoje, muito pelo contrário. A escola daquela época excluía aqueles que não tinham condições de se manterem nela e reprovava aqueles que não aprendiam, ou melhor, que não decoravam suas lições. Ela reprovava e reprovava muito. Neste sentido, não acho que possamos dizer que uma escola que deixava de atender mais da metade da sua população possa ser chamada de boa. Seguindo dados do próprio Ministério da Educação, em 1990, apenas 19% da população possuía o então primeiro grau completo, 13% o nível médio e 8% o ensino superior.

Também não acho que seja boa uma escola que mantinha altas taxas de reprovação. Em minha opinião, escola boa é aquela que faz o aluno aprender, não aquela que além de não garantir a aprendizagem de grande parte dos seus alunos, depois ainda os expulsa. Assim era essa escola: seletiva e excludente. Por funcionar como uma espécie de peneira e ficar apenas com os alunos considerados “melhores”, essa escola acabava tendo uma aparência de qualidade, mas era uma qualidade ilusória, pois era muito fácil parecer ser boa trabalhando apenas com uma parte da população, e justamente a parte que atendia plenamente seu modo de funcionamento.

Internamente ela realmente funcionava bem, pois ela tinha instrumentos para levar os alunos a fazerem aquilo que ela queria que os alunos fizessem, algo que de certo modo falta à escola de hoje, cuja estrutura e professores estão totalmente desempoderados. Mas não significa que ela era uma boa escola por conta disso, pois ela funcionava bem apenas para os alunos que aprendiam o que ela queria ensinar. Ao mesmo tempo, porém, ela era muito severa com aqueles que não conseguiam fazê-lo e, neste sentido, falhava em sua missão educativa, uma vez que essa missão tem que considerar o todo da população e não apenas alguns poucos com melhor desempenho.

Ao mesmo tempo, sua missão é ensinar, mas aquela escola encobria seus próprios fracassos reprovando e excluindo todos aqueles que ela própria não conseguia ensinar. É como se ela dissesse que o aluno tinha que se adequar a ela para se manter quando na verdade era ela que precisava se adequar ao aluno para fazê-lo aprender, mas ignorava esse papel. Falava-se muito em fracasso escolar, portanto, e o que é o fracasso escolar? É basicamente algo que continuamos a ver se repetir hoje que é o fato de o aluno ir a escola todos os dias, mas não conseguir aprender. A única diferença é que hoje há mecanismos para manter o aluno na escola e isso fica mais evidente, enquanto que naquela época o aluno era simplesmente expulso ou desistia por conta própria e isso ficava meio que encoberto.

Com relação à questão da periferia há algo de muito sintomático nessa questão do fracasso escolar, algo que precisa ser muito bem compreendido. Trata-se da linguagem da escola. A escola está estruturada com base em uma linguagem que está muito distante da linguagem da periferia (a linguagem elitista) e isso explica porque as taxas de reprovação e fracasso escolar tendem a ser maiores entre essa população. Isso porque, para os alunos de classes sociais elevadas, é muito fácil entender a linguagem da escola, pois é a linguagem do cotidiano deles. Para o caso dos alunos da periferia, no entanto, antes de aprender os ditos conteúdos e saberes escolares, eles precisam aprender a linguagem por meio da qual esses conteúdos e saberes são ensinados, o que não é natural para eles, leva tempo e nem sempre é alcançado.

Isso explica em grande medida o tipo de fracasso escolar que impera hoje que vem sendo chamado de analfabetismo funcional. Em outras palavras, a escola dos anos 70-90 não era melhor do que a de hoje porque a de hoje está mais preocupada com a diversidade que constitui nossa sociedade e está orientada de modo a não ser mais excludente, mas ainda assim, ela ainda não encontrou o caminho para cumprir adequadamente seu papel. Não é, portanto que ela seja pior do que a escola dos anos 70-90, ela apenas não oculta mais seus fracassos como aquela escola fazia. Como a escola de hoje precisa lidar com todos que a procuram e que precisam dela, suas dificuldades de funcionamento ficam bem mais evidentes, não dá para escondê-las, o que de certa forma é positivo, pois mostra exatamente que algo não está bem e precisa ser mudado. No caso anterior, todavia, a realidade era ocultada e ficava por isso mesmo.  

Junto com essa ideia bastante questionável de que a escola dos anos 70-90 era melhor do que a de hoje, costuma-se falar também que a docência já foi uma profissão muito valorizada e que hoje os professores estariam perdendo o grande prestígio que um dia já tiveram. Nesse sentido, é importante notar que essa também é uma perspectiva muito relativa e que precisa ser muito bem compreendida. De modo resumido, em um passado mais distante, o acesso ao conhecimento era algo muito difícil, assim como aos próprios cursos superiores que podiam levar a esse conhecimento sistematizado.

Sendo assim, o acesso ao conhecimento estava muito ligado à questão da classe social, diferente de hoje que a revolução tecnológica em curso, como por exemplo, a internet permite o acesso ao conhecimento de modo abundante por meio de computadores, smartphones e outros dispositivos. Em outras épocas, a formação universitária era algo que só as classes mais abastadas conseguiam ter e, dentro desse contexto, o professor era tão valorizado quanto ainda é hoje um engenheiro, um médico, etc., uma vez que o acesso a esses cursos ainda costuma ser muito difícil (muitíssimo concorrido no caso das universidades públicas, por exemplo e muito caro para se manter, mesmo em universidades públicas), de modo que isso gera uma demanda por esses profissionais em nosso país muito maior do que o número de profissionais formados na área.

De certa forma isso também acontece com os professores (há falta deles), mas o processo de massificação que houve no ensino a partir dos anos 90 acabou levando também a uma massificação na formação dos professores. O prestígio dos professores naquele contexto de épocas passadas tinha a ver com uma questão de classe social, portanto, pois apenas os membros das classes sociais mais abastadas conseguiam acesso à formação sistematizada e ao conhecimento necessário para exercer a docência.

Como diz o ditado “em terra de cego quem tem olho é rei”. Assim, aqueles que tinham conhecimento e formação superior eram muito admirados, porque poucos tinham acesso àquilo, mas não podemos nos esquecer que a educação básica no Brasil nunca foi valorizada como precisa ser, nunca houve um programa nacional de valorização do professor e da educação que quisesse, de fato, levar educação de qualidade para todo o país e, diante disso, conviveu-se durante muito tempo também com os ditos professores leigos, pessoas que precisavam apenas provar que sabiam ler, escrever e realizar as quatro operações básicas da matemática para serem professores.

Os primeiros professores do Brasil foram os jesuítas e eles foram os únicos professores que tivemos por mais de 200 anos. Quando o Marquês de Pombal proibiu o ensino jesuítico e instituiu as aulas régias, os professores passaram a ser leigos, mas eram muito poucos e diversas vezes nem sequer recebiam o salário, uma mazela que de certo modo anunciou o modo como os professores seriam tratados por aqui. Tais professores eram poucos, trabalhavam em más condições (instabilidade, por exemplo), não era necessário que tivessem formação de ponta para lecionar e os salários além de não serem tão altos geralmente falhavam.  Ainda hoje convivemos com professores que possuem apenas o ensino médio e ainda assim lecionam em determinadas regiões do país. Mesmo que a legislação diga que a formação para o magistério deve se dar em nível superior, a carência em algumas regiões é tamanha que a própria legislação educacional deixa brechas para isso, sob o pretexto de reconhecer as “especificidades locais”. Em termos de salários, uma armadilha muito séria nas compensações dos professores, sobretudo da carreira pública, é o pagamento por hora-aula e por jornadas baseadas nessas horas-aula.

Hoje, mesmo com a instituição do piso nacional tal situação de armadilha não foi superada, pois enquanto o salário mínimo aumenta todo ano até como forma de acompanhar o aumento progressivo do custo de vida, os salários dos professores não são regulados de acordo com o salário mínimo, com a inflação ou algum outro tipo de indicador. O aumento se dá apenas como questão discricionária dos diversos governos aos quais o professorado está vinculado e isso costuma vir apenas depois de muita negociação, envolvendo sindicatos e demais órgãos de representação. Diante disso, passam-se anos sem que os professores recebam reajustes enquanto os preços de tudo a sua volta aumentam. Isso traz uma grande defasagem ao salário. Houve até uma época em que os salários dos professores eram bons, mas foi um curto período e com a massificação da educação tal salário só vem despencando e quando têm reajustes eles não cobrem as perdas. 

Outro ponto importante nessa questão é que o dito prestígio dos professores muitas vezes era confundindo com o poder, o poder de reprovar. Naquela escola excludente de que falamos, o respeito ao professore não era necessariamente advindo da admiração pelo seu conhecimento, mas sim do medo, o medo da reprovação. O professor tinha em suas mãos o poder de reprovar e diante de uma escola e uma sociedade que eram autoritárias, os professores eram muito mais temidos do que reverenciados, era mais uma questão de autoritarismo do que de autoridade.

O Bairro – As novas políticas de educação melhoraram ou pioraram as escolas?

Jefferson – As políticas educacionais adotadas a partir dos anos 90 foram muito positivas com relação a sua motivação. O objetivo era prioritariamente colocar na escola aqueles que estavam fora dela, isto é, garantir-lhes o acesso e, ao mesmo tempo, reduzir os altos índices de reprovação e evasão escolar que existiam. Tais políticas ficaram conhecidas, sobretudo, como políticas de universalização do ensino e correção de fluxo, pois um outro problema muito sério era a distorção idade/série entre os alunos, consequência direta da reprovação. Em certo sentido, a política de correção de fluxo foi adotada justamente para viabilizar a política de universalização, em termos de acesso e permanência.

Sem entrar aqui nos detalhes dos elementos contextuais que levaram o Brasil a adotar essas políticas, não há como negar que seu objetivo foi muito positivo. Apesar de estarem fundamentadas em intenções legítimas, no entanto, essas políticas foram um fracasso em termos de aplicabilidade. Elas trouxeram um verdadeiro caos para a educação porque foram implementadas sem um mecanismo de acompanhamento e readequação, ou seja, não se fez experiências piloto para verificar se dariam certo ou mesmo não houve reflexão e reação diante de seus fracassos. Por um lado essas políticas fizeram apenas escancarar a fragilidade das nossas escolas e dos seus métodos de ensino, sua incapacidade de lidar com seu aluno, especialmente os das periferias. Escancarou também a distancia entre a linguagem desses alunos e a linguagem da escola, uma distorção que não é educacional, é socioeconômica. Por outro lado, ela trouxe consequências negativas sim, pois fizeram uma escola que já era questionável se tornar ainda pior.

Isso porque ela tirou dos profissionais que atuam na escola – principalmente dos professores – toda a sua autoridade, isto é, eles ficaram esvaziados dos mecanismos que tinham para conseguir fazer as coisas funcionarem. Peguemos, por exemplo, o caso da progressão continuada, uma medida que foi adota a fim de atender a política de correção de fluxo. Por mais equivocado que isso seja, a reprovação era um dos principais instrumentos que os professores utilizavam a fim de garantirem o respeito a sua autoridade. Com a progressão continuada, os professores foram simplesmente destituídos desse mecanismo e passaram a sofrer hostilizações constantes dos alunos. Não é a toa que os casos de adoecimento mental são a principal causa de afastamento do trabalho entre os professores e dobraram nos últimos anos. Não se trata aqui de dizer que a escola tem que continuar reprovando e que o poder de reprovação tem que ser devolvido aos professores para que eles voltem a ser respeitados pelos alunos. Não acho que o respeito do aluno pelo professor deve ser condicionado a um instrumento de poder, mas também não acho que o professor pode continuar sendo refém dos alunos e vítima de um sistema que não garante condições mínimas de trabalho como está acontecendo.

Claro que não era positivo que o respeito ao professor estivesse vinculado a um mecanismo de poder chamado reprovação, mas tirar isso assim, abruptamente sem colocar nada no seu lugar nem sequer trabalhar alguma coisa nesse sentido configurou uma perversidade enorme contra esses profissionais, ao mesmo tempo que foi também uma perversidade contra o aluno, pois os resultados estão aí: indisciplina, violência, baixo aproveitamento, vergonha mundial em termos de aproveitamento escolar.

A escola virou um caos porque os mecanismos que garantiam seu funcionamento foram simplesmente tirados à força e o pior, desprovida de tais mecanismos fundamentais, a escola viu sua população escolar dobrar, quadriplicar, quintuplicar. Sem permissão para continuar reprovando e/ou expulsando os alunos, a escola passou a ter que conviver com toda essa diversidade de alunos, tanto os que ingressaram a partir dessas políticas dos anos 90 (sobretudo alunos mais pobres que antes não conseguiam entrar e/ou se manter nas escolas) como também com aqueles que ela simplesmente antes reprovava ou expulsava.

E tem que lidar com esses alunos estando com seu poder em frangalhos. Embora haja um discurso de certo modo acertado de que o respeito do aluno pelo professor precisa ser construído a partir de uma relação que envolve conquista de confiança, admiração e carisma, o que esse discurso não diz é que isso precisa ser estruturado enquanto um projeto de nação, projeto esse que valorize, de fato, seus professores. Não precisamos ir longe nessa questão, basta lembrar que o salário dos professores no Brasil é simplesmente lamentável (é o mais baixo, por exemplo, entre profissionais de ensino superior) e que, por outro lado, sempre que há qualquer problema educacional a ser discutido na mídia o professor passa a ser escrachado como “mal formado” ou “pouco esforçado”. Sem contar as atitudes governamentais de interromperem manifestações dos professores com uso da violência por parte das polícias, como vimos acompanhando.

O Bairro – A desvalorização do professor afetou este processo?

Jefferson – Sem sombra de dúvidas afetou, qualquer sistema precisa de todos os seus componentes e recursos funcionando bem para garantir a obtenção dos seus objetivos. O sistema educacional não é diferente. Claro que, quando falamos de um sistema temos que precisar no todo, sistema não é apenas a soma de partes, mas o pleno funcionamento (e em harmonia) de um todo. Mas não há também como ignorar que o professor forma, junto com o aluno, o núcleo desse sistema. Não há como esse sistema funcionar adequadamente e atingir seus objetivos se um dos seus elementos mais fundamentais que é o professor não consegue trabalhar, como esta acontecendo. No caso do professor, como ele precisa da livre adesão do aluno para ensinar, não se trata apenas de falarmos em desvalorização.

No caso do professor a desvalorização se reflete em falta de condição de trabalho, pois estando desvalorizado o aluno não o respeita e não aceita aprender com ele, passa a hostiliza-lo e praticar a anti-aula sem que o professor tenha mecanismos efetivos para se contrapor a isso. Assim sendo, não há ensino, logo, não há como o professor trabalhar nem como o sistema não atinge seus objetivos. Pena que a cegueira política que ronda a questão parece não conseguir enxergar isso, mas continua covardemente a atribuir a culpa ao professor, que é justamente a vítima de uma condição perversa.   

O Bairro – Tudo evoluiu nos últimos, a tecnologia é um exemplo, porém a escola continua há décadas. A falta de investimento nas escolas e nos espaços educacionais interfere na educação?

Jefferson – Sem dúvida. Conforme dissemos anteriormente, o professor precisa da livre adesão do aluno para conseguir trabalhar. Essa é uma máxima muito importante que aprendi com um dos grandes professores que tive, o professor Jair Militão. A escola que temos sempre teve uma grande dificuldade para lidar com alunos provenientes de classes sociais inferiorizadas simplesmente porque ela, a escola, fala uma língua que é muito distante da língua desse aluno, como o aluno das periferias dos grandes centros urbanos, por exemplo. Em países como o nosso cujo abismo entre as classes é tão acentuado, essa questão é ainda mais importante. Além de haver essa distância entre a linguagem da escola e a linguagem do aluno pobre de periferia, agora há um outro tipo de abismo que é o tecnológico. Diante disso nossa escola ficou não apenas distante da língua de grande parte do público que a frequenta, mas distante também da nova linguagem mundial que é pautada pela velocidade, pelo dinamismo e por que não dizer pelo protagonismo. Nas redes sociais, cada um é protagonista da sua história (ainda que idealizada) e da visão de mundo que compartilha. Mas isso não traz só pontos positivos, pelo contrário, traz muitos riscos.

A recente atenção dada avalanche das Fake News é um exemplo. A ilusão da superficiliadade bate cada vez mais a porta e isso mostra que talvez mais do que nunca a escola se torna fundamental enquanto espaço de reflexão, formação do senso crítico e aprofundamento. Mas, não há como competir com uma Ferrari se você está em uma carroça. É preciso sim investimentos pesados na educação para que ela se equipe e possa ser levado a serio pelos alunos e pela sociedade. Só é possível analisar criticamente uma realidade se você possui credibilidade para isso e enquanto a tecnologia não chegar pesadamente às escolas elas não vão ser levadas à serio. Mais do que credibilidade, se trata de representatividade. Os alunos que estão hoje tão seduzidos por essa tecnologia jamais se sentirão representados por escolas e professores que estão com bolas de ferro em seus pés enquanto eles, os alunos, estão querendo voar.

O Bairro – O que é necessário para melhorar a educação nas escolas públicas?

Jefferson – Esta é a pergunta de um milhão de dólares. Somos muito bons em apontar os erros e falhas, mas muito rasos em apontar soluções. Por isso, embora a questão seja muito complexa, acredito profundamente que o início da solução resida em algo muito simples, porém difícil de se conseguir. A solução está em um detalhe que vai na contramão da nossa história. Trata-se primordialmente de vontade política para que isso aconteça. Para melhorar a educação pública brasileira, é preciso que haja pesados investimentos para que ela passe a ter a cara do nosso século (pois ainda tem a cara do século XIX) e, sobretudo, de valorização dos seus professores. Essa fórmula foi adotada por países como Cingapura e já vem sendo adotada há muito tempo por países nórdicos que nos fascinam com seus resultados, como Noruega e Finlândia. É preciso parar com a hipocrisia dos discursos que confundem dinheiro enviado às escolas com investimentos reais, como também é preciso parar com a covardia de dizer que nossos baixos resultados são culpa dos professores que seriam mal formados.

O professor é mal pago e mal assessorado, tem baixo respaldo e poucos recursos para trabalhar, além de sofrer por estar em uma sociedade que, embora diga que seu trabalho é importante, está constantemente de olho nele com desconfiança e não o valoriza na prática. Essa atitude é estimulada por nossos próprios governantes que sempre dizem que vão dar “cursos para os professores” (como se eles não tivessem sempre estudando) toda vez que são interpelados sobre o que vão fazer para melhorar a educação.

Como podemos ver, nem aqueles que contratam os professores os respeitam. Diante disso, como os alunos poderão respeitar? Como é que um professor com salário e condições de trabalho precários conseguirá ser valorizado e respeitado pelos seus alunos? A fórmula é relativamente simples: investimentos pesados e valorização real do professor, mas isso esbarra em um uma miopia que muitos atribuem ao pensamento atrasado de uma elite política e econômica que acha que o povo tem que ser mantido sem condições adequadas de ensino para serem mais facilmente manipulados. Mal percebem eles que o atraso real está neles.

Padre Antônio completa 60 anos de ministério na Av. Cupecê

Padre Antônio da Igreja Santa Edwiges, da Avenida Cupecê, 5205

Um dos párocos mais importantes da zona sul de São Paulo, o Padre Antônio Alves da Silva, 95 anos, mais conhecido como Padre Antônio, completa 60 anos de ministério. Ordenado em 1961, ajudou a fundar a igreja Nossa Senhora de Loreto, no bairro do Aeroporto e em 1963 veio para o Jardim Miriam, onde ajudou a criar a igreja de Santa Edwiges, onde permanece até hoje.  Nestes 58 anos de atividades no bairro, a Comunidade Santa Edwiges já realizou milhares de eventos beneficiando os moradores locais entre, Primeira Comunhão, batismos e Casamentos.

Padre Antônio com a vestimenta da Igreja Católica Ordodoxa Militante

Desde 2016, as igrejas fundadas pelo Padre Antônio, foram doadas para a Igreja Católica Romana, pertencendo à Diocese de Santo Amaro, pois antes pertenciam à Igreja Ortodoxa Militante e agora, por conta disto, a unidade do bairro do Aeroporto mudou de nome, agora se chama “Comunidade Santa Faustina”. Já a Santa Edwiges, permanece com o mesmo nome e sob o comando do Padre Antônio.

Não foi apenas o trabalho ministerial que o tornou conhecido pelo bairro, mas também pelo seu trabalho social junto às famílias carentes, tanto as do bairro do Aeroporto, como as do Jardim Miriam. “Tudo que fiz foi com ajuda do povo”, comentou o padre.

A reportagem do jornal o Bairro Cidade Ademar, esteve com o Padre Antônio e contou que “antes o povo tinha mais fé’, pois a igreja estava sempre lotada”.

Confira a primeira parte desta reportagem neste link.

Confira um pouco da história da Igreja Santa Edwiges em imagens junto à comunidade – Imagens Raras

CEMA inaugura unidade na zona sul

No próximo dia 15 de março, o CEMA (Centro de Medicina Avançada) in augurará uma unidade no Shopping Ibirapuera para atender moradores da zona sul.

Novo salão de atendimento do CEMA no Shopping Ibirapuera – Divulgação

Com unidades em todas as regiões de São Paulo e um hospital de referência no atendimento de olhos, ouvidos, nariz e garganta, o CEMA chega a zona sul. A unidade conta com equipamentos de ponta, médicos especializados e equipe treinada. A unidade Ibirapuera contará com vários serviços, entre eles estão consultas regulares em oftalmologia e otorrinolaringologia, exames, como mapeamento de retina, retinografia, campimetria, paquimetria ultrassônica, microscopia especular, topografia de córnea, biometria, polissonografia nasofibroscopia direta, nasofibrolaringoscopia, audiometria, otoneurológico, entre outros.

Pacientes de planos de saúde e particulares poderão marcar suas consultas ou passar via pronto atendimento, nos casos mais urgentes. Situações de maior complexidade serão encaminhados para o Hospital CEMA.

Assim como todas as outras unidades e a matriz, a Ibirapuera também seguirá rigorosamente as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) no que diz respeito ao controle da pandemia: distanciamento social, uso obrigatório de máscaras, triagem na entrada, disponibilização de álcool gel 70% em todo local e encaminhamento de pacientes suspeitos para os hospitais de referência no atendimento de casos de Covid.

“A expectativa é oferecer aos pacientes da região uma opção de oftalmologia e otorrinolaringologia completa para todo o público, tendo como padrão a excelência, respeito e humanização, com um atendimento rápido, resolutivo e com total qualidade e segurança, mantendo sempre, o histórico de excelência, marca do CEMA”, detalha o coordenador de unidades, Leonardo Assunção.

UNIDADE CEMA – IBIRAPUERA

Endereço: Avenida Ibirapuera, 3103 – Indianópolis, São Paulo – SP (Piso Jurupis)

Funcionamento: De segunda à sábado (pronto atendimento e hora marcada)

Data da inauguração: 15.03.2021

Sobre o CEMA

Referência no atendimento especializado de olhos, ouvidos, nariz e garganta há 45 anos o Hospital CEMA atende os mais variados planos de saúde e clientes particulares. O Hospital mantém a unidade e o pronto-atendimento funcionando 24 horas, 7 dias por semana.  Possui ainda clínicas de especialidades complementares em neurologia (dor), fonoaudiologia, medicina do sono, disfunção temporomandibular, cirurgia plástica estética, orientação nutricional, odontologia e ortodontia, com atendimento exclusivo com hora marcada, além de unidades ambulatoriais em todas as regiões de São Paulo, em São Bernardo do Campo, no ABC, Guarulhos e Taboão da Serra.

Para mais informações sobre o Hospital e seu braço social, o Instituto CEMA, acesse: http://www.cemahospital.com.br

Padre Antônio doa igreja Santa Edwiges à igreja “Católica Romana”

Aos 95 anos de idade, Padre Antônio Alves, fundador da Igreja Católica Santa Edwiges, na Avenida Cupecê, e também um dos responsáveis pelo desenvolvimento do bairro do no Jardim Miriam, no inicio dos anos 60, doa a igreja ao Ministério Católico Romano, pertencendo à diocese de Santo Amaro. Depois de décadas como igreja Ortodoxa, agora as missas celebradas por Padre Antônio seguem à liturgia da igreja Católica Romana.

Tradicional igreja Santa Edwiges na Avenida Cupecê agora pertence à Diocese de Santo Amaro

Um dos responsáveis pela formação e urbanização do bairro do Jardim Miriam, Padre Antônio Alves, doou a tradicional igreja Santa Edwiges ao Ministério Católico Romano, pertencente à diocese de Santo Amaro. Segundo o padre, em 2016 decidiu agregar a Santa Edwiges ao ministério Católico Romano e foi autorizado pelo bispo da Diocese de Santo Amaro Dom Giuseppe “José” Negri a permanecer no posto. A igreja Santa Edwiges, é a mais antiga do bairro, fundada em 1963 pelo Padre Antônio e pertencia ao ministério da Igreja Católica Ortodoxa Militante, porém ficou popularmente conhecida na região como “Igreja Católica Brasileira”.

“A igreja era católica ortodoxa, nunca foi brasileira”, corrigiu o Padre Antônio, responsável pela fundação da igreja em 1963, sendo uma das pessoas mais importantes da região para o desenvolvimento do Jardim Miriam e da Cidade Ademar. No inicio dos anos 60, o padre ajudou a assentar dezenas de famílias no bairro que não tinham onde morar. “Existia uma favela próximo ao Clube dos Aeroviários no Aeroporto, tirei aquele povo de lá, e trouxe para o Jardim Miriam. Naquela época o bairro era um grande campo com vários lotes, e todos vieram para cá. Ajudei a ‘desfavelar’ aquela área, pois trouxe muitas famílias para cá”, disse.

Inicio – Ordenado padre em 1961, Padre Antônio trabalhava como secretário do bispo da igreja de Nossa Senhora da Aparecida Dom Francisco Borja do Amaral, e veio para São Paulo para começar seu ministério. Ainda em 1961, fundou a igreja Católica Ortodoxa Militante Comunidade Nossa Senhora de Loreto, na Rua Marília de Dirceu, 491, no bairro do Jardim Aeroporto. “O bispo foi trabalhar para a Congregação de Santo Afonso e eu o ajudava como secretário. Nesta época, a missa inteira era em latim”, relembrou fazendo uma prece em latim.

Padre Antônio mostra a nova Liturgia Católica Romana que segue desde 2016

“Existia uma favela próximo ao Clube dos Aeroviários no Aeroporto, tirei aquele povo de lá, e trouxe para o Jardim Miriam. Naquela época o bairro era um grande campo com vários lotes, e todos vieram para cá. Ajudei a ‘desfavelar’ aquela área, pois trouxe muitas famílias para cá.”

Padre Antônio

Após construir a igreja do Aeroporto em 1961, junto com a comunidade local, Padre Antônio tinha mais um desafio: propiciar qualidade de vida e dar novos sonhos para as famílias que estavam em condições precárias no bairro do Aeroporto. Foi quando descobriu o bairro do Jardim Miriam, uma região com muitos lotes e com poucas casas. “Lá, naquela época, o Aeroporto tinha uma favela, uma comunidade muito pobre e o Jardim Miriam era um bairro novo, com poucas casas e muitos lotes baratos à venda”, comentou.

Em 1963 Padre Antônio começa seu ministério no Jardim Miriam com a comunidade da Igreja Santa Edwiges, quando trouxe dezenas de famílias do aeroporto para o bairro e construíram com a ajuda do povo, uma igreja ainda de madeira. “Praticamente, desfavelei uma comunidade do aeroporto, e o povo que veio para cá junto com a comunidade local construímos a igreja. As pessoas vieram da comunidade ‘Risca faca’ e ‘Buraco Quente’, e vieram ter novas condições de vida em um novo bairro que estava nascendo que era o Jardim Miriam. Nunca fiz nada sem contar com a participação do povo. Percorria todas as casas no aeroporto para rezar. Fiz o mesmo aqui, saia às ruas com a imagem de Nossa Senhora e rezava o terço nas casas dos moradores. Eu tirava as pessoas daquela favela e as trazia para o Jardim Miriam, pois aqui era um grande campo e com esperança de um bom lugar para morar”, disse.

Preconceito – Por pertencer ao Ministério Católico Ortodoxo Militante, o Padre relembra de vários de preconceito que sofria de católicos de outras igrejas.

“Nunca fomos da igreja Católica Brasileira. Várias pessoas falavam mal de nós, e faziam criticas à nossa igreja. Ao contrário disso, sempre estivemos ao lado das igrejas locais. Inclusive quando queriam derrubar as casas e a Paróquia Nossa Senhora de Aparecida, aqui na Cupecê, para a construção de um terminal de ônibus. Isto aconteceu durante o governo da Prefeita Luiza Erundina, e fomos para a rua, contra esta proposta, e a prefeita me recebeu em seu gabinete e impedimos que isto acontecesse. Nosso trabalho sempre teve a comunidade como prioridade”, relembrou segurando uma foto do encontro.

Padre Antônio à direita no gabinete da Prefeita Luiza Erundina impedindo que derrubasse as casas e a Igreja vizinha Nossa Senhora Aparecida para a construção de um terminal de ônibus no inicio dos anos 90 – Arquivo

“Vários padres nos criticaram, algumas pessoas falaram mal de nós. Mas sempre estivemos do lado deles e do lado do amor. Hoje o pessoal é meio vazio de fé”, lamentou.

Nova fase – Atualmente a igreja pertence à diocese de Santo Amaro. Mas a doação também não foi um ato simples. O padre também doou a igreja Comunidade Santa Faustina no Aeroporto para a Diocese de Santo Amaro. Segundo ele, no momento da doação, Don Fernando sugeriu que o caso deveria ser decidido em Roma, pelo Papa. “O novo bispo da Diocese de Santo Amaro, Dom José Negri autorizou que continuasse aqui na igreja, devido aos anos de trabalho como pároco local. Meu caso iria para Roma, mas o bispo deixou que continuasse ordenando as missas. Aqui continuarei enquanto eu viver”, comentou o padre.

Padre Antônio mostra a imagem de Nossa Senhora que ele percorria de casa em casa para rezar – Foto Sérgio Pires

Terreno da Igreja – Hoje a Igreja Santa Edwiges fica na Avenida Cupecê, 5205, ao lado da UBS Jardim Miriam II. Mas o terreno poderia ser bem maior. Segundo o padre, em 1963, um fiel que frequentava a igreja, Sr. Francisco Armando doou o terreno que era muito grande, ia praticamente até o Poupa Tempo, mas logo após a doação ele faleceu e seus filhos não aceitaram e não reconheceram a doação. “Por conta disto, tivemos que comprar o lote onde a igreja está localizada. Quem ajudou a comprar foi uma fiel frequentadora da igreja, Dona Amara de Oliveira Alves, que pagou o lote com a rescisão de seu contrato de trabalho”, revelou.

Celebração da Primeira Comunhão, nos anos 60 – Arquivo

Amara ajudava em todos os trabalhos da igreja, como os cursos de catecismos, batismos, casamentos, entre outros serviços junto à comunidade. Milhares de pessoas do bairro foram batizadas e fizeram o curso de catecismo na igreja. Revelando um arquivo com nomes de milhares de pessoas. Amara ajudava a organizar todos estes eventos, até 1991, quando faleceu. Na época, sua filha Roberta Karina Oliveira Alves, tinha apenas 10 anos, e foi “adotada” pelo Padre Antônio. Hoje Karina auxilia o padre em seus trabalhos junto à comunidade e também com a escolinha das crianças. “Desde que a minha mãe faleceu, o padre me adotou e me criou”, disse Karina.

Padre Antônio também conta com a ajuda de Lourdes dos Santos Brunelli, da Associação Santa Edwiges, desde 1984. Esta associação ajuda na manutenção da igreja e sempre colabora com os serviços junto à comunidade.

Empolgado com a sua nova fase, Padre Antônio apresentou o fardamento que celebra as missas. Hoje seguimos a liturgia católica Romana. “Antes não usávamos certas regras que hoje temos”.

Padre Antônio ao centro junto com Karina e Lourdes Brunelli, que o auxiliam na administração da igreja – Sérgio Pires

Sonhos – Aos 95 anos, Padre Antônio já não sai às ruas como antes, mas gosta de lembrar o passado. “Aqui era tudo capim, ajudei a fundar a pedra desta igreja junto com a comunidade, afinal vivemos a custa deles”, comentou.

Olhando parta a imagem de Nossa Senhora no canto da parede, ele aponta para ela e relembra: “Com esta imagem eu percorria todas as casas, rezava o terço e benzia as casas. Eu andava por aí, ia de casa em casa. Fiz isto no aeroporto e também pelas ruas do Jardim Miriam”, relembrou.

Hoje o maior sonho do Padre Antônio é comprar um relógio para igreja. “Estou guardando dinheiro. Queria comprar um relógio bem grande que pudesse ser referência para nossa igreja. Mas não sei se vou conseguir, por conta da minha idade. O relógio custa R$ 6 mil. Não sei se vou conseguir guardar este dinheiro todo, não sei se morro antes”, finalizou.·.

Para colaborar com a igreja ou marcar uma visita, ligar para o telefone (11) 5621-7316.

Thaís Scabio – Uma cineasta da quebrada

Entrevista divulgada pelo jornal  online Expresso Periférico com Thaís Scabio, a cineasta que mora na região e é destaque como uma das principais revelações do Brasil. A entrevista foi realizada em quatro partes pelo Expresso Periférico, aqui, no O Bairro Cidade Ademar, colocamos todas estas partes  em uma única postagem. Conheça Thaís Scabio.

Por Evinha Eugênia

Thais Scabio, cineasta da região premiada na V Mostra de Cinema com o filme Barco de Papel.

Produtora executiva, diretora e roteirista, fundadora da Cavalo Marinho Audiovisual, junto com Gilberto Caetano, atuando à frente de projetos de promoção e produção audiovisual e cultural na região de Cidade Ademar e Pedreira, pelo Fórum de Cultura, pelo Coletivo Mascate Cineclube e Espaço Cultural JAMAC. Atua também no Movimento do Audiovisual Negro e Periférico sendo uma das fundadoras e membra da diretoria da APAN – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro e é Gestora de Desenvolvimento de Negócios da plataforma Todesplay.

Expresso Periférico – Morando e sendo cria da periferia, enfrentando todas as dificuldades de acesso (cultura, arte, lazer) e parafraseando o verso dos Racionais “o mundo é diferente da ponte pra cá”, como nasce a cineasta, que ousa sonhar ser parte deste cenário raro para mulheres negras e periféricas?

Thais Scabio  – Às vezes eu brinco que em uma região como a nossa, Cidade Ademar e Pedreira, que não tem nenhum espaço de cultura, sou quase um milagre. Nascer uma cineasta num lugar desprovido de estímulos ou incentivos é bem difícil mesmo, é muito difícil, devo ser bem maluca (rsrsrs…). Desde criança sempre estive no meio da cultura: minha mãe me levava para São Bernardo, cidade do ABC e próxima do Jardim Miriam, para fazer teatro e sempre frequentei Diadema, cidade que faz divisa com o nosso bairro, um polo cultural, uma efervescência das artes. Enquanto Diadema tem o mesmo número de habitantes da nossa região e conta com 11 equipamentos de cultura, aqui não contamos com nenhum. A cidade de Diadema colaborou muito com minha formação: me deslocava da Cidade Júlia e ia para Diadema participar de atividades culturais. No Centro Afro-Brasileiro do Centro Cultural do Jabaquara, despertei para minha identidade de mulher negra, conheci o mestre Caranguejo e iniciei minha formação, debatendo questões raciais e dando os primeiros passos para a realização do sonho ousado de ser cineasta. Sempre gostei de filmes, íamos para a casa da minha bisavó sentar e ouvir ela contar sobre filmes, adorávamos esses momentos. Na minha casa com a presença da mãe “arteira” – ela gosta de artes plásticas que não é minha “praia” (rsrsrs…) – ela influenciou esse meu sonho e o apoio da família, a liberdade que nos deram de escolher nossos caminhos, a oportunidade de transitar e frequentar os espaços de cultura, foram incentivos para continuar minha escolha.

Passei a adolescência nos Centros de Cultura do Jabaquara e Vergueiro e com 14/15 anos passava por debaixo das catracas de ônibus (rsrsr…) para me locomover. Também ia até o Brás no Centro Cultural Mazzaropi fazer circo. Em 2003 me formei na Faculdade de Rádio e TV na UNISA, porque Cinema só tinha na FAAP e na USP e eu não tinha condições, vinda de um processo de seleção do Educafro, classificada entre os 10 primeiros para uma bolsa de estudos, abracei a oportunidade e a contrapartida era trabalhar gratuitamente na faculdade durante o dia e estudar à noite. Para ter algum dinheiro e continuar estudando, nos finais de semana fazia alguns “bicos”. Lembro que um pessoal que se formou comigo e morava em Moema, no último ano de faculdade, o pai de um deles montou produtora com programa garantido na TV Cultura e nós nem tínhamos equipamentos. Meu primeiro contato com audiovisual foi em Diadema, nas oficinas de 1999 e depois criamos o “Núcleo de Cinema e Vídeo Com Olhar”. Produzimos muito com equipamentos emprestados e com apoio da prefeitura na época. São oportunidades diferentes, as diferenças sociais que nos acompanham sempre. Isso não impediu nosso trabalho e formação ou diminuiu nossa capacidade em relação aos outros, mas se não fosse a diferença social dentro do audiovisual talvez, nesta época, já tivesse feito meu longa metragem, por exemplo. Acabei sendo reconhecida tardiamente por falta de recurso mesmo. Mas a produtora montada na faculdade fechou e a minha está aí firme e forte.

Expresso Periférico – Quais são os maiores enfrentamentos da cineasta, produtora, roteirista e agitadora cultural para atravessar esse mundo, ainda com forte presença da camada privilegiada da sociedade, branca e rica?

Thais Scabio – A profissão que eu escolhi não era a princípio para nós, mulheres negras e homens negros periféricos. Para me declarar cineasta, foi um trabalho de identidade para me colocar numa profissão que a sociedade nunca te apresentou como possível. O cinema, o audiovisual, no Brasil tem seu formato digital nos anos 90 e, se tornando um meio digital, democratizou e permitiu o acesso de pessoas como eu e outras de várias regiões, como do Capão, Paraisópolis, Cidade Tiradentes, entre outros locais. Todos começamos na mesma época e para me ver como cineasta foi bem complicado. Na mídia diziam que fazíamos vídeo, vídeo makers e aí quando você via o pessoal da faculdade, que estava fazendo a mesma coisa e usando os mesmos equipamentos, porém, para eles era cinema digital. Então, quando criamos no JAMAC o Cinema Digital, foi uma provocação e uma resposta: na periferia fazíamos sim,” cinema digital”. Isso foi em 2009 e foi muito importante para me reconhecer como mulher cineasta nessa sociedade. Quando nós começamos, eu e o Giba, meu primeiro filme foi em 2003, nós éramos os únicos negros nos festivais, era muito estranho e foi uma quebra de barreira muito importante, inclusive para a região.

Montamos a Cavalo Marinho Audiovisual, em 2005, na sala da minha casa na Cidade Júlia. Só tínhamos um computador que compramos usado. Tivemos que enfrentar diversos preconceitos. Teve um cliente que perguntou para um amigo nosso se éramos bons mesmo, só depois que ele foi na minha casa. Provamos que éramos e trabalhamos muitas vezes com ele.  Cansei de ter que ficar provando que entendia sobre audiovisual, só porque somos da periferia. Acontece até hoje.

Prêmio –  V MOSTRA DE CINEMA NEGRO DE MATO GROSSO com o filme Barco de Papel.

Expresso Periférico – O cinema, o áudio visual movimenta uma parte considerável da economia, criando postos de trabalho que atuam “por detrás das câmaras”, que são invisíveis e deslocados para funções braçais (carregam equipamentos, montam cenários, limpam espaços, etc…), porém liderando os processos, criando e dirigindo. Ainda são raros os profissionais negros e periféricos, dá para separar a criatura do criador ou cineasta e militância caminham inseparáveis?

Thais Scabio – Não tem como separar o audiovisual e entretenimento, acho importante rir e adoro fazer comédia, gosto de ver as pessoas se divertirem, são momentos importantes na periferia. Porém, o audiovisual é nossa ferramenta de lutas e denúncias também. Quantas coisas já denunciamos graças a uma câmera, um celular na mão que salvou vida e denunciou mortes que ficariam escondidas se não fosse a câmara. Meu primeiro trabalho remunerado no audiovisual foi como cinegrafista, a única mulher num programa de TV de futebol e percebi que a caminhada seria árdua.(risos). No JAMAC quando falávamos com os alunos percebia que o pessoal não queria saber desses enfrentamentos, só queriam mexer na câmara e não sonhavam além de ser cinegrafistas. Não pensavam em ser uma direção de fotografia, por exemplo, esse sonho parecia muito distante. Eu gosto de escrever, produzir e dirigir. São áreas de liderança, de organização e nós periféricos não somos impulsionados para a formação de liderança, mas sim para funções braçais, de obediência, subserviência, nossa escola é “Deus ajuda quem cedo madruga”, então pensar em ser liderança em alguma profissão é uma quebra de estereótipo. A classe alta é educada para liderar. Nas oficinas e vivências do JAMAC abordamos de forma assertiva essa questão da liderança e hoje temos um núcleo representativo no meio. Estamos dando a volta e conquistando esse espaço, atualmente temos muitas lideranças periféricas no audiovisual .

Expresso Periférico – Você, apesar de muito jovem, além de sócia da produtora Cavalo Marinho, tem uma militância na formação de jovens no audiovisual, transformando vidas a partir da arte, e na criação de espaços para organização destes movimentos, conta o que te provoca essa inquietação e como funcionam esses coletivos?

Thais Scabio – Como salientei frequentava muito Diadema e outros núcleos fora da região, um dia uma liderança do Pantanal na Cidade Júlia, disse para mim: você não tem vergonha de frequentar outros lugares e a nossa região não tem nada? O que você fica fazendo no fórum de cultura de Diadema que conta com diversos equipamentos? Isso mexeu comigo e aí percebi que tinha que devolver o que aprendi na faculdade conseguida com vaga da “ cota racial, era minha obrigação” trazer para a comunidade esse conhecimento que tive, não sei se “ privilégio, por ter apoio da família”, e ter acesso à Universidade, mas também em outros lugares que pude circular (Bibliotecas, teatros, cursos e diversas formações), minha mãe sempre diz que “que devemos transformar, modificar e melhorar o nosso lugar” isso impulsionou meu projeto de formação de jovens.

Coletivo de Cultura da Cidade Ademar

Sempre tive essa aproximação com questões e discussões da juventude (sexualidade, educação, artes) e fiz parte da militância, ainda adolescente, para implantação dos Céus e o Alvarenga foi resultado dessa luta, local que dei minha primeira oficina de audiovisual, a partir daí levei a oficina para várias escolas, ocasião em que conheci o JAMAC e a Mônica Nador que, nos convidou para ocupar aquele espaço com o audiovisual. A primeira atividade no JAMAC foi uma exibição com o Mascate, um projeto de Cinema na Rua que iniciamos em 2005. É engraçado que no início do Mascate nos incomodava os falatórios durante as exibições dos filmes, mas aí sentimos que o importante mesmo era o cinema, estar ali e as pessoas se encontrarem e conversarem, Vizinhos que não conversavam há muito tempo, se encontravam no Cinema na Rua e começava essa troca e ainda temos o microfone aberto, momento em que as pessoas falam sobre o filme e também questões da comunidade. Considero esse projeto um movimento de formação da região e ele estimulou a luta pela Casa de Cultura. Desde 2004/2005 entrei nessa luta pela instalação deste equipamento de cultura, ainda não conseguimos, é difícil, é muito difícil chegar na região as políticas públicas, mas nossos jovens carecem desse espaço e eu não desisto de trazer aquelas vozes do Cinema de Rua para o palco da Casa de Cultura.

Expresso Periférico – Sua luta e mobilização para implantação de um Centro Cultural na Cidade Ademar e Pedreira, tem garantido avanços para a concretização deste espaço. O que o território conquista com sua efetivação e como nossa juventude pode se inserir nessa luta, aglutinando forças e criando essa relação de pertencimento com esse importante instrumento de reunião das diversas formas de expressões artísticas da nossa comunidade?

Thais Scabio – Meu sonho é ter um modelo do Centro Cultural Vergueiro na nossa região, com espaço de plantio, salas inclusivas, cursos, oficinas, encontros, teatro, cinema e aquela biblioteca gigante que eu adorava ficar lá, lendo, pesquisando e estudando. Muitos jovens não têm acesso a esses instrumentos e isso muda nossa vida, me tornei uma pessoa bem melhor, mais crítica, adquiri uma visão mais coletiva e de diversidades, o mundo fica grande e a cultura proporciona esse engajamento nas lutas sociais, de raça e gênero. As expressões artísticas são importantes para qualquer que seja o caminho que vamos trilhar. Uma enfermeira, um médico, engenheiro, advogado terão mãos mais habilidosas e mentes criativas se tiverem em suas formações as artes (pintura, música, teatro, poesia, trabalhos manuais, etc…) A sociedade precisa de seres criativos, o que a Ditadura fez tirando as expressões artísticas do curriculum escolar tirou das crianças e jovens os instrumentos que davam sentido à escola. Acredito que por isso os Saraus fazem tanto sucesso entre jovens da quebrada, são nos Saraus que encontram sentido para suas escritas, músicas e performances: o ser humano precisa de criatividade e a arte proporciona isso. Sei que um equipamento de cultura não resolve tudo, mas a cultura ferve em nossa região mesmo sem um equipamento público, utilizamos as ruas que, são espaços de convivência e de criação, um território importante que nos diferencia.

Expresso Periférico – “A Melhor Face do Espelho” e “Ipa/Ipá – Efeito e Força” , mostra que sua obra tem uma determinante, uma ressignificância e um resgate do ancestral e do feminino. O primeiro trata da relação da mulher com seu corpo e o outro as vozes e a atuação solidária dessas mulheres periféricas para o enfrentamento de mais uma pandemia em suas vidas. O que te provoca esse olhar sensível, terno e forte sobre esses corpos e qual foi o impacto destes registros?

Thais Scabio – “A Melhor Face do Espelho” foi meu primeiro trabalho como diretora e roteirista, fazia parte do TCC da faculdade em 2003. Engraçado que se você pegar o trabalho de várias mulheres negras que são diretoras, a maioria vai falar sobre o corpo, o cabelo e/ou sua identidade. Li um texto em um jornal, que não me lembro, era independente, e me reconheci muito no texto. Pensei: tenho que trazer esse corpo, falar desse que sempre tive problemas de reconhecer, foi muito bom e na época eu fazia um trabalho sobre sexualidade com jovens e adolescentes e rodou em muitos locais. “Ipa/Ipá – Efeito e Força” uma amiga me ligou e queria saber quem eram as pessoas que estavam distribuindo cestas básicas e ajuda na comunidade durante a pandemia. Aí eu constatei que de Eldorado até Americanópolis todas eram mulheres e mulheres negras, 90% mulheres negras, pensei: tenho que registrar e trazer a luta dessas mulheres. Ao mesmo tempo aconteceu a morte do Guilherme (adolescente assassinado pela polícia militar), a TV mostrando o desespero da mãe e da avó, aquele choro compulsivo, tudo isso provocou uma responsabilidade de como cineasta e na cultura, registrar essas mulheres, essas lideranças da região que enfrentam a pandemia, mas já enfrentavam várias outras situações de violências contra a mulher, de fome e necessidades básicas e agora, estavam se colocando à frente para resolver problemas, não só da pandemia mas como da comunidade como um todo. Senti que era minha obrigação e o audiovisual é uma ferramenta de luta, empoderamento, denúncia e voz. Ipa/Ipá vem como um filme para dizer o que estamos fazendo e quem são essas mulheres, negras, nesse lugar abandonado pelo Poder Público.

Expresso Periférico – “Cada Estampa uma história” – JAMAC. Em poucos minutos nos transporta por elementos visuais e emocionais para um experimento de sensações de ternura, brasilidade nos movimentos, ancestralidade, transpiração e muita emoção com sua trilha perfeita, de onde vem esse insight criativo que dá um movimento visceral nas estampas?

Thais Scabio – Foi uma ideia do Giba, meu companheirão. Assim como no JAMAC cada estampa tem sua história, ele achou importante trazer essa linguagem que não são só desenhos, mas a história de vida das pessoas que frequentam o JAMAC ou por onde a Mônica Nador passou. Íamos filmar o desfile que era conclusão do ponto de cultura do JAMAC, o projeto era filmar o desfile das estampas que foram produzidas. Acessamos uma linguagem do audiovisual que se chama fashion film (técnica usada para comunicar/divulgar em vídeos curtos, trabalhos, ideias e conceitos de moda), aí pensamos: vamos fazer um filme do JAMAC, por que não? Por que só as grandes galerias, as altas confecções as utilizam? Ai, como no JAMAC Cinema Digital a gente quis provocar, cinema digital a gente já faz, agora vamos fazer um fashion film do JAMAC Uma das cenas gravamos na Oscar Freire, levamos a estamparia do JAMAC para a Oscar Freire. São várias provocações, os bailarinos são todos da região (pessoal do Arte, do Jardim Luso que fazem um trabalho incrível de dança) e pensamos no corpo e na estampa, num filme publicitário e poético.

Expresso Periférico – “Barco de Papel” é navegar com delicadeza pela situação de abandono e pelos sonhos das nossas crianças que desde cedo enfrentam a dura realidade da exclusão: – meninos em situação de rua -, transportando para o imaginário de uma vida que jamais deveria figurar no mundo dos sonhos, mas sim dos direitos. É um curta completo, roteirizado com ternura, alegria, cores e magia. Foi escrito há mais de 14 anos, o que muda para os dias atuais? Como ele se materializou e quais os prêmios conquistados?

Thais Scabio – Escrevi assim que me formei na faculdade, eu precisava trabalhar na área do audiovisual e todos os trabalhos que conseguia eram gratuitos, tinha que ficar esperando uma oportunidade paga e eu tinha que sobreviver, então fui trabalhar como educadora social com crianças em situação de rua em Santo Amaro. Todas as experiências na vida são válidas e lá conheci esses meninos em situação de rua, muitas histórias e nasce a inspiração para “Barco de Papel” em homenagem aos meninos que faleceram numa chacina e a única lembrança dos que sobreviveram eram dos sapatos pretos brilhantes. No grupo tinham vários engraxates: guardei por 14 anos os escritos, queria uma animação de papel, porque o papel é uma coisa que se dissolve fácil e os sonhos daqueles meninos se dissolvem muito rápido, sonhos e vida se dissolvendo muito rápido. Eu não conseguia, do jeito que queria, não tinha tecnologia que eu queria em 2003 e nem pessoas. Conheci o Rodrigo Eba!, que era professor de animação do JAMAC na época, super parceiro e profissional, que topou fazer Finalizei e comecei a enviar para vários editais e ele nunca passava. Não parei de mandar e isso foi desde 2010 e em 2017 a SPCINE abriu um edital que tinha ações afirmativas de raça e gênero para a periferia. Isso também é resultado de uma luta, várias conversas com o SPCINE para que fosse concretizado. Com essa política pública tivemos resultados incríveis como o filme “Sem Asas”’ de Renata Martins da Zona Leste, São Matheus do qual também participei como 2ª assistência de direção e que em 2020 conquistou um dos prêmios mais importantes do Brasil, o Grande Prêmio de Cinema Brasileiro, na categoria curta de ficção e foi por políticas públicas, que consegui materializar “Barco de Papel”. Era um filme bem difícil de produzir e fiquei em dúvida Quando escrevi em 2004, a situação era bem diferente, mas infelizmente constato que a situação dos engraxates é um cenário constante da cidade,

“Barco de Papel” participou de muitos festivais e foi selecionado no Brasil e exterior – Argentina, Reino Unido, Alemanha – ele rodou o mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de ficção na mostra de Cinema Negro do Mato Grosso – Festival de Cinema Negro.

Expresso Periférico – No decorrer da sua carreira quais foram suas produções, os avanços e mudanças ocorridas que viabilizaram o protagonismo dos talentos periféricos?

Thais Scabio – Fiz muita produção, produzo desde 2003 na faculdade e em 2005/ 2006 comecei a produzir pela Cavalo Marinho, desde “websérie”, longa, média e curta metragem, não me lembro da quantidade, mas tem muita coisa e é isso, a democratização do audiovisual vem pelo digital. Na periferia nós fazemos cinema digital sim, nós temos a linguagem do cinema, luz, câmera e ação.

Com o trabalho de ações afirmativas na educação superior também surgiu muita gente boa e importante que faz cinema e tem um trabalho muito legal.

Existe uma cumplicidade entre o pessoal do audiovisual periférico. Um torce pelo sucesso do outro, não competimos entre nós. Quando um conquista um prêmio é como se todos nós ganhássemos. É uma rede que temos desde os anos 2000 e pouco e que acredito que fortaleceu o cinema periférico, porque um emprestava para o outro equipamento, luzes e daí fomos crescendo juntos.

Estamos em outro cenário, Agora vamos para festivais e vemos gente preta fazendo cinema, aquele monte de filme negro e periférico: muito orgulho. Tem o filme “Periféricu”: ganharam a Mostra de Cinema de Tiradentes em 2020, é um pessoal do Capão, filme LGBTQ+ e todos da periferia. Ficamos todos na mesma casa em Tiradentes porque estava com o Barco de Papel participando. Em um Festival tão elitista e ver eles ganhando foi muito legal, foi um momento especial em minha vida, foi lindo e estávamos torcendo muito.

Existe uma cumplicidade entre o pessoal do audiovisual periférico. Um torce pelo sucesso do outro, não competimos entre nós. Quando um conquista um prêmio é como se todos nós ganhássemos. É uma rede que temos desde os anos 2000 e pouco e que acredito que fortaleceu o cinema periférico, porque um emprestava para o outro equipamento, luzes e daí fomos crescendo juntos.

Expresso Periférico – O cinema tem uma tarefa educativa dentro dessa nossa sociedade desigual, injusta e que não respeita as diversidades, alcançando um número expressivo de pessoas, como popularizar, viabilizar o acesso a esse instrumento que pode ser de formação e de sensibilização, despertando conhecimento e pertencimento sobre nossas histórias?

Thais Scabio – Eu sempre levo nas palestras, gosto muito de trabalhar com o infantil, sou educadora também, tenho formação em educação e uma coisa que a gente não discute é o poder do audiovisual na educação, na alfabetização. O audiovisual, todo audiovisual principalmente num país como o nosso com um índice de analfabetismo muito grande, ele é responsável por uma formação educativa, de formação de opinião, de informação para a nossa sociedade.

Todo filme educa tanto para o bem quanto para mal e eu acho que a partir do momento em que estamos com uma câmera na mão temos que saber da responsabilidade que temos com ela, uma responsabilidade muito grande com as pessoas que estão assistindo, precisamos ter essa consciência, E vejo vários influenciadores, “youtubers” que começaram a entender seu papel e importância no audiovisual, de formação educativa da câmara.

Um professor meu falava que um médico quando erra, morre uma pessoa e destrói uma família, mas alguém da comunicação quando erra prejudica uma sociedade inteira. É o que vimos nas eleições. Penso muito nessa responsabilidade que eu tenho na mão de educar a população, não só crianças, mas a população em si quando estão vendo meu filme, estão vendo minha opinião, minha posição política, meu olhar que influencia muita gente, temos que nos preocupar com isso.

Expresso Periférico – Recentemente você liderou um processo de criação da TodesPlay, uma plataforma de streaming para divulgação exclusiva de conteúdos produzidos por profissionais negros: conta para os leitores do Expresso Periférico como funciona o acesso, seu conteúdo e os diferenciais?

Thais Scabio – Ela vem também para quebrar esse estereótipo, a maioria das plataformas de streaming de exibição são comandadas por homens brancos de classe alta, são eles que escolhem o que você vai assistir nessas plataformas. Esse olhar da elite branca e hetero está nas agendas de diversos streamings. Quando a gente cria uma plataforma para quebrar esse olhar trazendo uma diversidade de produção e com conteúdos identitários. Acredito ser uma plataforma muito importante porque a maioria das nossas produções negras e principalmente as periféricas são feitas, via de regra, sem recursos públicos. Uma pesquisa da ANCINE de 2018, apresentou que apenas 4% desses recursos públicos vão para diretores e diretoras negras. A maioria dos filmes produzidos na periferia são feitos sem verba pública, produção por nossa conta e depois não temos retorno, ninguém, ninguém paga por eles e geralmente o fim desses filmes é o Youtube e, para ter uma renda no Youtube demora e um outro ou outro consegue e, que ganha muito dinheiro, são essas plataformas.

Thais durante filmagem do filme “Barco de Papel” – Arquivo pessoal

Na Todesplay a proposta de trabalho é a divisão de lucro, é uma plataforma de assinatura e lá tem filmes do Brasil inteiro e fora também, de vários gêneros, está muito bonita e fico super orgulhosa. Nossa equipe principal é composta por várias regiões. Tem eu de São Paulo, Rafael do Pará, Uilton da Bahia e Rio, a Ana do Distrito Federal, daqui da nossa região da Cupecê, nossa assessora de imprensa, Darwin do Ceará e a Viviane Ferreira da Bahia, é um processo bem diverso e bem bonito, estou gostando muito. O valor de assinatura também deixamos popular para viabilizar o acesso das pessoas e ainda tem festivais e mostras e a parte de acesso gratuita. Viviane Ferreira é a CEO da Todesplay, presidente da APAN, cineasta e fez seu longa recentemente. Está sendo uma experiência bem importante, estou conhecendo mais dessa área tecnológica de streaming.

Ter duas mulheres negras periféricas no controle e na organização de uma plataforma do streaming é uma quebra de paradigmas que estamos enfrentando. As pessoas acham que é um projeto social, mas o projeto é um negócio para trazer renda para o audiovisual negro, para produzir de forma independente e ter seu retorno financeiro com os filmes que produzirem.

Expresso Periférico – Como você vê e pensa a possibilidade de parcerias com escolas públicas dos territórios, levando o cinema como ferramenta complementar para a educação?

Thais Scabio – Eu deixei a área da educação formal faz tempo. Penso que o sistema de educação, principalmente o pensamento das Secretarias, da direção, o comando ali é muito retrógrado. Ficou para trás do mundo atual. Tenho bastante dificuldade em fazer projeto atualmente dentro da escola. Faço projeto com escolas que já tem um trabalho anterior. É bem difícil chegar com o Mascate Cineclube em uma escola sem trabalho, exibir um filme e ir embora. Até banana já levamos na tela, porque não fez sentido estarmos ali. É incrível como o mesmo aluno na escola é uma coisa e na comunidade é outra.”

Expresso Periférico – Por fim, como a pandemia do Coronavírus afeta as produções audiovisuais e quais as alternativas para o seguimento, considerando que para 2021 não se apresenta pelas esferas públicas e seus responsáveis, perspectivas efetivas de medidas que possam conter sua evolução e acolher suas vítimas?

Thais Scabio – Afeta, principalmente as produções grandes, que tem muita gente envolvida. O cinema é uma área coletiva, não tem como não aglomerar. As grandes produções foram muito mais afetadas, nós produzimos com poucas pessoas porque não temos grana para pagar muita gente e já conhecíamos e fazíamos muita coisa online. Em 2012 eu o Giba editamos um filme para um amigo que estava na Califórnia, já tínhamos esse home office audiovisual (…rsrsrs…) as reuniões da APAN já fazíamos “ online” com representantes do Brasil inteiro pelo Skype, pra gente foi fácil se adaptar. Lamentamos a interrupção das exibições do Mascate, paramos o Cinema na Rua porque as pessoas se aglomeram. Mas as alternativas que se apresentam para o setor, são as apresentações “online” que, alcançam mais pessoas, conseguimos interagir e conversar com muita gente, na última exibição “ online” do Mascate, tínhamos público até em Moçambique.