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A romantização do subemprego como empreendedorismo

No inicio dos anos 2000 fui contratado por uma entidade comercial para publicar um jornal empresarial. Durante a reunião de pauta o presidente da entidade sugeriu o grande tema “Empreendedorismo”, era uma palavra que começava a ser entoada pelos empresários e líderes governamentais como a principal política neoliberal. Naquela época, no inicio do governo Lula, não tínhamos a real definição da palavra, muito menos da política e das reformas trabalhistas e principalmente da maior crise política do país agravada com a pandemia, que transformou a palavra “empreendedorismo”, como uma nova roupagem para definir “subemprego”, ou em outras palavras, o desemprego.

Fiz uma matéria enorme com vários exemplos de “empreendedores” que faziam empréstimos de R$ 2 mil para comprar um carrinho de pipocas. Anos mais tarde, a ficha caiu. Tudo que estamos assistindo na grande mídia e também nos discursos de várias autoridades nada mais é que a “romantização” de uma das maiores crises já vividas no Brasil. Afirmar que vender bolos, marmitex, sanduiches, são os novos empreendedores é uma das maiores mentiras veiculadas pela televisão.

E isto não é de hoje, desde a ditadura militar, a imprensa já fez o mesmo, utilizando termos como “recessão” para não usar a palavra real “crise” e “reajuste”, para não utilizar a palavra “aumento”. Tudo isto para ocultar o descontrole do governo. O termo “empreendedor”, assim como a palavra reajuste, podemos classifica-la como um eufemismo (figura de linguagem que suaviza as expressões), que esconde, na verdade, a real situação caótica.

Atualmente a crise está sendo romantizada com os novos empreendedores, pois é bonito ver na propaganda da televisão, como a iniciativa da Rede Globo com o VAE (Vamos Ativar o Empreendedorismo), como se tudo fosse fácil e belo. Como se a linha de crédito estivesse aberta para todos, quando conseguem um empréstimo, os juros são abusivos. E tudo é um paraíso nas Pequenas Empresas Grandes Negócios, tudo funciona e é rentável, quando na realidade não é.

Repararam que a palavra “camelô” não está sendo mais utilizada na grande mídia? Agora são “vendedores de rua”, assim como a palavra “biscate”, eles foram promovidos pelos governantes como trabalhadores da “Economia Criativa”.

A reforma trabalhista, apoiada por parte da mídia, agravou o número de desempregados no país, afinal “o tiro saiu pela culatra”, e os 12 milhões que já estavam desempregados na época do Governo Temer, aumentou ainda mais. A ideia que se passa é que, agora não há emprego para toda esta gente, então eles têm que se virar sem ajuda do governo, então vai vender bolo, marmita, ou qualquer outra coisa, pois não há trabalho, e o governo não vai te ajudar. É isto.

De acordo com o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra empreendedor, se origina do latim imprendere, que significa decidir, realizar tarefa difícil e laboriosa. Antes, a definição de empreendedor era de uma pessoa que tinha o capital e, por opção, estudos específicos, decidia empreender em um negócio específico. Um exemplo, era como funcionavam as gravadoras musicais nos anos 70. Ela descobria um talento, e baseado neste talento deste artista, lançava um disco no mercado, mesmo ele ou ela nem serem ainda conhecidos do público.

Hoje, este investidor, é chamando como “anjo” pelos novos líderes da tecnologia. Estes “empresários” não são mais empreendedores, foram “promovidos” a “dons celestiais”, pois são eles que definem as empresas que devem investir ou serem sócios, onde poderão aplicar o capital, afinal, empreendedor agora é coisa de “pobre”.

Mas, e se os empreendedores não conseguirem o capital do “anjo”, nem do banco, poderão ir ao inferno econômico, que são os “agiotas”, estes não brincam, pois o “deus mercado” está vendo tudo, e não ajuda ninguém.

Este post foi publicado em: Opinião

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Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, Letras, pela Faculdade Diadema. Pós-Graduado em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André. Andante das ruas da Cidade Ademar e de toda São Paulo e apaixonado pelas comidas de boteco e futebol, principalmente futebol de várzea.

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