Artigo, Opinião
Deixe um comentário

O amor social extinto

No passado, os mutirões eram mais comuns nas periferias.

Sérgio Pires
Editor

Há muito tempo, os vizinhos da rua onde morávamos eram mais que nossos amigos, eram como um familiar, um ente querido, pois todos se conheciam nas ruas. Sabíamos quem eram os comerciantes do bairro e as pessoas que frequentavam estes lugares, o Zé do açougue, o Mário do bazar, o Manoel da padaria, os engraxates que ficavam nas calçadas próximas dos pontos de ônibus e padarias; as crianças que brincavam nas ruas, empinando pipas, jogando bolinhas de gude, rodando peão ou jogando bola. Estas crianças eram conhecidas por todos, como o Luizinho, filho da Dona Luzia, O Kaká, filho do seu Mário, O Carlinhos, filho do Otávio; o Tadeu, que era filho da Dona Maria e a Manoela, filha da Dona Joana, era tudo assim, uma verdadeira comunidade completamente interligada casa-igreja-sociedade amigos de bairro-botecos-rua-escolas… Ou seja, era tudo conectado e compartilhado.    

Bolinhas de gude eram brincadeiras de rua mais comuns

Toda esta rede fazia parte de um sistema social, era uma verdadeira comunidade onde aconteciam mutirões, compartilhamento de alimentos ou pratos especiais. Se um vizinho fizesse uma macarronada especial, à tarde ou na mesma hora a Dona Maria tocava a campainha com um tapoware para que nós experimentássemos o prato. Se alguém fizesse churrasco, logo éramos convidados, bastava levar umas cervejas e pronto. As necessidades dos próximos eram compartilhadas com toda a vizinhança, como uma xícara de açúcar, café ou de qualquer outro produto.

Isto acontecia claramente nas ruas, e nas igrejas locais, nasceram às associações do bairro e também recebíamos convites para realizações de mutirões ou quaisquer tipos de abaixo-assinado para melhoria do bairro. Todo este clima que tinha nesta época era uma espécie de amor social de ajuda mútua em prol do vizinho, da rua, do bairro, ou seja, de toda a comunidade.

Hoje esta mesma rua já não existe. Os conceitos são outros. Entretando os problemas ainda são os mesmos. As casas que antes tinham quintais, hoje já não tem, foram feitos puxadinhos e mais puxadinhos. A periferia não tem mais quintais e as pessoas já não se conhecem como antes. São raros os locais que ainda prezam pelo estilo antigo, pois tudo mudou, pois aquele amor social morreu, o novo que aqui está já não tem o mesmo “amor social”.

Nos bares da periferia cada vez mais lotados, as pessoas já não se conhecem como antes. As crianças já não brincam nas ruas, pois os carros e o trânsito local as impedem; os pequenos não sabem mais fazer pipas, muito menos as enormes rabiolas, que para colocar uma pipa grande no ar precisava de pelo menos dois garotos. Hoje é tudo mastigado nas lojinhas de pipas e todos malfeitos, estilo “peixinho”. Se um destes pipas fossem feitos no passado, chamaríamos de “lixo no ar”, aliás, uma capuxeta antiga é melhor que muitos pipas que estão à venda.

Então o que nos falta para que tenhamos mais amor para com o próximo: Solidariedade. Enquanto nós não fomos solidários com as necessidades de quem está ao nosso lado, a nossa distância para com outro será ainda maior. Enquanto estivermos pensando apenas nos nossos desejos e nas nossas necessidades estaremos nos afastando e nos enganando nas redes sociais, compartilhando apenas imagens de um falso amor social para satisfazer apenas o nosso ego, mas não em prol da comunidade.

Este post foi publicado em: Artigo, Opinião

por

Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, Letras, pela Faculdade Diadema. Pós-Graduado em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André. Andante das ruas da Cidade Ademar e de toda São Paulo e apaixonado pelas comidas de boteco e futebol, principalmente futebol de várzea.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s