Entrevista
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Thaís Scabio – Uma cineasta da quebrada

Entrevista divulgada pelo jornal  online Expresso Periférico com Thaís Scabio, a cineasta que mora na região e é destaque como uma das principais revelações do Brasil. A entrevista foi realizada em quatro partes pelo Expresso Periférico, aqui, no O Bairro Cidade Ademar, colocamos todas estas partes  em uma única postagem. Conheça Thaís Scabio.

Por Evinha Eugênia

Thais Scabio, cineasta da região premiada na V Mostra de Cinema com o filme Barco de Papel.

Produtora executiva, diretora e roteirista, fundadora da Cavalo Marinho Audiovisual, junto com Gilberto Caetano, atuando à frente de projetos de promoção e produção audiovisual e cultural na região de Cidade Ademar e Pedreira, pelo Fórum de Cultura, pelo Coletivo Mascate Cineclube e Espaço Cultural JAMAC. Atua também no Movimento do Audiovisual Negro e Periférico sendo uma das fundadoras e membra da diretoria da APAN – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro e é Gestora de Desenvolvimento de Negócios da plataforma Todesplay.

Expresso Periférico – Morando e sendo cria da periferia, enfrentando todas as dificuldades de acesso (cultura, arte, lazer) e parafraseando o verso dos Racionais “o mundo é diferente da ponte pra cá”, como nasce a cineasta, que ousa sonhar ser parte deste cenário raro para mulheres negras e periféricas?

Thais Scabio  – Às vezes eu brinco que em uma região como a nossa, Cidade Ademar e Pedreira, que não tem nenhum espaço de cultura, sou quase um milagre. Nascer uma cineasta num lugar desprovido de estímulos ou incentivos é bem difícil mesmo, é muito difícil, devo ser bem maluca (rsrsrs…). Desde criança sempre estive no meio da cultura: minha mãe me levava para São Bernardo, cidade do ABC e próxima do Jardim Miriam, para fazer teatro e sempre frequentei Diadema, cidade que faz divisa com o nosso bairro, um polo cultural, uma efervescência das artes. Enquanto Diadema tem o mesmo número de habitantes da nossa região e conta com 11 equipamentos de cultura, aqui não contamos com nenhum. A cidade de Diadema colaborou muito com minha formação: me deslocava da Cidade Júlia e ia para Diadema participar de atividades culturais. No Centro Afro-Brasileiro do Centro Cultural do Jabaquara, despertei para minha identidade de mulher negra, conheci o mestre Caranguejo e iniciei minha formação, debatendo questões raciais e dando os primeiros passos para a realização do sonho ousado de ser cineasta. Sempre gostei de filmes, íamos para a casa da minha bisavó sentar e ouvir ela contar sobre filmes, adorávamos esses momentos. Na minha casa com a presença da mãe “arteira” – ela gosta de artes plásticas que não é minha “praia” (rsrsrs…) – ela influenciou esse meu sonho e o apoio da família, a liberdade que nos deram de escolher nossos caminhos, a oportunidade de transitar e frequentar os espaços de cultura, foram incentivos para continuar minha escolha.

Passei a adolescência nos Centros de Cultura do Jabaquara e Vergueiro e com 14/15 anos passava por debaixo das catracas de ônibus (rsrsr…) para me locomover. Também ia até o Brás no Centro Cultural Mazzaropi fazer circo. Em 2003 me formei na Faculdade de Rádio e TV na UNISA, porque Cinema só tinha na FAAP e na USP e eu não tinha condições, vinda de um processo de seleção do Educafro, classificada entre os 10 primeiros para uma bolsa de estudos, abracei a oportunidade e a contrapartida era trabalhar gratuitamente na faculdade durante o dia e estudar à noite. Para ter algum dinheiro e continuar estudando, nos finais de semana fazia alguns “bicos”. Lembro que um pessoal que se formou comigo e morava em Moema, no último ano de faculdade, o pai de um deles montou produtora com programa garantido na TV Cultura e nós nem tínhamos equipamentos. Meu primeiro contato com audiovisual foi em Diadema, nas oficinas de 1999 e depois criamos o “Núcleo de Cinema e Vídeo Com Olhar”. Produzimos muito com equipamentos emprestados e com apoio da prefeitura na época. São oportunidades diferentes, as diferenças sociais que nos acompanham sempre. Isso não impediu nosso trabalho e formação ou diminuiu nossa capacidade em relação aos outros, mas se não fosse a diferença social dentro do audiovisual talvez, nesta época, já tivesse feito meu longa metragem, por exemplo. Acabei sendo reconhecida tardiamente por falta de recurso mesmo. Mas a produtora montada na faculdade fechou e a minha está aí firme e forte.

Expresso Periférico – Quais são os maiores enfrentamentos da cineasta, produtora, roteirista e agitadora cultural para atravessar esse mundo, ainda com forte presença da camada privilegiada da sociedade, branca e rica?

Thais Scabio – A profissão que eu escolhi não era a princípio para nós, mulheres negras e homens negros periféricos. Para me declarar cineasta, foi um trabalho de identidade para me colocar numa profissão que a sociedade nunca te apresentou como possível. O cinema, o audiovisual, no Brasil tem seu formato digital nos anos 90 e, se tornando um meio digital, democratizou e permitiu o acesso de pessoas como eu e outras de várias regiões, como do Capão, Paraisópolis, Cidade Tiradentes, entre outros locais. Todos começamos na mesma época e para me ver como cineasta foi bem complicado. Na mídia diziam que fazíamos vídeo, vídeo makers e aí quando você via o pessoal da faculdade, que estava fazendo a mesma coisa e usando os mesmos equipamentos, porém, para eles era cinema digital. Então, quando criamos no JAMAC o Cinema Digital, foi uma provocação e uma resposta: na periferia fazíamos sim,” cinema digital”. Isso foi em 2009 e foi muito importante para me reconhecer como mulher cineasta nessa sociedade. Quando nós começamos, eu e o Giba, meu primeiro filme foi em 2003, nós éramos os únicos negros nos festivais, era muito estranho e foi uma quebra de barreira muito importante, inclusive para a região.

Montamos a Cavalo Marinho Audiovisual, em 2005, na sala da minha casa na Cidade Júlia. Só tínhamos um computador que compramos usado. Tivemos que enfrentar diversos preconceitos. Teve um cliente que perguntou para um amigo nosso se éramos bons mesmo, só depois que ele foi na minha casa. Provamos que éramos e trabalhamos muitas vezes com ele.  Cansei de ter que ficar provando que entendia sobre audiovisual, só porque somos da periferia. Acontece até hoje.

Prêmio –  V MOSTRA DE CINEMA NEGRO DE MATO GROSSO com o filme Barco de Papel.

Expresso Periférico – O cinema, o áudio visual movimenta uma parte considerável da economia, criando postos de trabalho que atuam “por detrás das câmaras”, que são invisíveis e deslocados para funções braçais (carregam equipamentos, montam cenários, limpam espaços, etc…), porém liderando os processos, criando e dirigindo. Ainda são raros os profissionais negros e periféricos, dá para separar a criatura do criador ou cineasta e militância caminham inseparáveis?

Thais Scabio – Não tem como separar o audiovisual e entretenimento, acho importante rir e adoro fazer comédia, gosto de ver as pessoas se divertirem, são momentos importantes na periferia. Porém, o audiovisual é nossa ferramenta de lutas e denúncias também. Quantas coisas já denunciamos graças a uma câmera, um celular na mão que salvou vida e denunciou mortes que ficariam escondidas se não fosse a câmara. Meu primeiro trabalho remunerado no audiovisual foi como cinegrafista, a única mulher num programa de TV de futebol e percebi que a caminhada seria árdua.(risos). No JAMAC quando falávamos com os alunos percebia que o pessoal não queria saber desses enfrentamentos, só queriam mexer na câmara e não sonhavam além de ser cinegrafistas. Não pensavam em ser uma direção de fotografia, por exemplo, esse sonho parecia muito distante. Eu gosto de escrever, produzir e dirigir. São áreas de liderança, de organização e nós periféricos não somos impulsionados para a formação de liderança, mas sim para funções braçais, de obediência, subserviência, nossa escola é “Deus ajuda quem cedo madruga”, então pensar em ser liderança em alguma profissão é uma quebra de estereótipo. A classe alta é educada para liderar. Nas oficinas e vivências do JAMAC abordamos de forma assertiva essa questão da liderança e hoje temos um núcleo representativo no meio. Estamos dando a volta e conquistando esse espaço, atualmente temos muitas lideranças periféricas no audiovisual .

Expresso Periférico – Você, apesar de muito jovem, além de sócia da produtora Cavalo Marinho, tem uma militância na formação de jovens no audiovisual, transformando vidas a partir da arte, e na criação de espaços para organização destes movimentos, conta o que te provoca essa inquietação e como funcionam esses coletivos?

Thais Scabio – Como salientei frequentava muito Diadema e outros núcleos fora da região, um dia uma liderança do Pantanal na Cidade Júlia, disse para mim: você não tem vergonha de frequentar outros lugares e a nossa região não tem nada? O que você fica fazendo no fórum de cultura de Diadema que conta com diversos equipamentos? Isso mexeu comigo e aí percebi que tinha que devolver o que aprendi na faculdade conseguida com vaga da “ cota racial, era minha obrigação” trazer para a comunidade esse conhecimento que tive, não sei se “ privilégio, por ter apoio da família”, e ter acesso à Universidade, mas também em outros lugares que pude circular (Bibliotecas, teatros, cursos e diversas formações), minha mãe sempre diz que “que devemos transformar, modificar e melhorar o nosso lugar” isso impulsionou meu projeto de formação de jovens.

Coletivo de Cultura da Cidade Ademar

Sempre tive essa aproximação com questões e discussões da juventude (sexualidade, educação, artes) e fiz parte da militância, ainda adolescente, para implantação dos Céus e o Alvarenga foi resultado dessa luta, local que dei minha primeira oficina de audiovisual, a partir daí levei a oficina para várias escolas, ocasião em que conheci o JAMAC e a Mônica Nador que, nos convidou para ocupar aquele espaço com o audiovisual. A primeira atividade no JAMAC foi uma exibição com o Mascate, um projeto de Cinema na Rua que iniciamos em 2005. É engraçado que no início do Mascate nos incomodava os falatórios durante as exibições dos filmes, mas aí sentimos que o importante mesmo era o cinema, estar ali e as pessoas se encontrarem e conversarem, Vizinhos que não conversavam há muito tempo, se encontravam no Cinema na Rua e começava essa troca e ainda temos o microfone aberto, momento em que as pessoas falam sobre o filme e também questões da comunidade. Considero esse projeto um movimento de formação da região e ele estimulou a luta pela Casa de Cultura. Desde 2004/2005 entrei nessa luta pela instalação deste equipamento de cultura, ainda não conseguimos, é difícil, é muito difícil chegar na região as políticas públicas, mas nossos jovens carecem desse espaço e eu não desisto de trazer aquelas vozes do Cinema de Rua para o palco da Casa de Cultura.

Expresso Periférico – Sua luta e mobilização para implantação de um Centro Cultural na Cidade Ademar e Pedreira, tem garantido avanços para a concretização deste espaço. O que o território conquista com sua efetivação e como nossa juventude pode se inserir nessa luta, aglutinando forças e criando essa relação de pertencimento com esse importante instrumento de reunião das diversas formas de expressões artísticas da nossa comunidade?

Thais Scabio – Meu sonho é ter um modelo do Centro Cultural Vergueiro na nossa região, com espaço de plantio, salas inclusivas, cursos, oficinas, encontros, teatro, cinema e aquela biblioteca gigante que eu adorava ficar lá, lendo, pesquisando e estudando. Muitos jovens não têm acesso a esses instrumentos e isso muda nossa vida, me tornei uma pessoa bem melhor, mais crítica, adquiri uma visão mais coletiva e de diversidades, o mundo fica grande e a cultura proporciona esse engajamento nas lutas sociais, de raça e gênero. As expressões artísticas são importantes para qualquer que seja o caminho que vamos trilhar. Uma enfermeira, um médico, engenheiro, advogado terão mãos mais habilidosas e mentes criativas se tiverem em suas formações as artes (pintura, música, teatro, poesia, trabalhos manuais, etc…) A sociedade precisa de seres criativos, o que a Ditadura fez tirando as expressões artísticas do curriculum escolar tirou das crianças e jovens os instrumentos que davam sentido à escola. Acredito que por isso os Saraus fazem tanto sucesso entre jovens da quebrada, são nos Saraus que encontram sentido para suas escritas, músicas e performances: o ser humano precisa de criatividade e a arte proporciona isso. Sei que um equipamento de cultura não resolve tudo, mas a cultura ferve em nossa região mesmo sem um equipamento público, utilizamos as ruas que, são espaços de convivência e de criação, um território importante que nos diferencia.

Expresso Periférico – “A Melhor Face do Espelho” e “Ipa/Ipá – Efeito e Força” , mostra que sua obra tem uma determinante, uma ressignificância e um resgate do ancestral e do feminino. O primeiro trata da relação da mulher com seu corpo e o outro as vozes e a atuação solidária dessas mulheres periféricas para o enfrentamento de mais uma pandemia em suas vidas. O que te provoca esse olhar sensível, terno e forte sobre esses corpos e qual foi o impacto destes registros?

Thais Scabio – “A Melhor Face do Espelho” foi meu primeiro trabalho como diretora e roteirista, fazia parte do TCC da faculdade em 2003. Engraçado que se você pegar o trabalho de várias mulheres negras que são diretoras, a maioria vai falar sobre o corpo, o cabelo e/ou sua identidade. Li um texto em um jornal, que não me lembro, era independente, e me reconheci muito no texto. Pensei: tenho que trazer esse corpo, falar desse que sempre tive problemas de reconhecer, foi muito bom e na época eu fazia um trabalho sobre sexualidade com jovens e adolescentes e rodou em muitos locais. “Ipa/Ipá – Efeito e Força” uma amiga me ligou e queria saber quem eram as pessoas que estavam distribuindo cestas básicas e ajuda na comunidade durante a pandemia. Aí eu constatei que de Eldorado até Americanópolis todas eram mulheres e mulheres negras, 90% mulheres negras, pensei: tenho que registrar e trazer a luta dessas mulheres. Ao mesmo tempo aconteceu a morte do Guilherme (adolescente assassinado pela polícia militar), a TV mostrando o desespero da mãe e da avó, aquele choro compulsivo, tudo isso provocou uma responsabilidade de como cineasta e na cultura, registrar essas mulheres, essas lideranças da região que enfrentam a pandemia, mas já enfrentavam várias outras situações de violências contra a mulher, de fome e necessidades básicas e agora, estavam se colocando à frente para resolver problemas, não só da pandemia mas como da comunidade como um todo. Senti que era minha obrigação e o audiovisual é uma ferramenta de luta, empoderamento, denúncia e voz. Ipa/Ipá vem como um filme para dizer o que estamos fazendo e quem são essas mulheres, negras, nesse lugar abandonado pelo Poder Público.

Expresso Periférico – “Cada Estampa uma história” – JAMAC. Em poucos minutos nos transporta por elementos visuais e emocionais para um experimento de sensações de ternura, brasilidade nos movimentos, ancestralidade, transpiração e muita emoção com sua trilha perfeita, de onde vem esse insight criativo que dá um movimento visceral nas estampas?

Thais Scabio – Foi uma ideia do Giba, meu companheirão. Assim como no JAMAC cada estampa tem sua história, ele achou importante trazer essa linguagem que não são só desenhos, mas a história de vida das pessoas que frequentam o JAMAC ou por onde a Mônica Nador passou. Íamos filmar o desfile que era conclusão do ponto de cultura do JAMAC, o projeto era filmar o desfile das estampas que foram produzidas. Acessamos uma linguagem do audiovisual que se chama fashion film (técnica usada para comunicar/divulgar em vídeos curtos, trabalhos, ideias e conceitos de moda), aí pensamos: vamos fazer um filme do JAMAC, por que não? Por que só as grandes galerias, as altas confecções as utilizam? Ai, como no JAMAC Cinema Digital a gente quis provocar, cinema digital a gente já faz, agora vamos fazer um fashion film do JAMAC Uma das cenas gravamos na Oscar Freire, levamos a estamparia do JAMAC para a Oscar Freire. São várias provocações, os bailarinos são todos da região (pessoal do Arte, do Jardim Luso que fazem um trabalho incrível de dança) e pensamos no corpo e na estampa, num filme publicitário e poético.

Expresso Periférico – “Barco de Papel” é navegar com delicadeza pela situação de abandono e pelos sonhos das nossas crianças que desde cedo enfrentam a dura realidade da exclusão: – meninos em situação de rua -, transportando para o imaginário de uma vida que jamais deveria figurar no mundo dos sonhos, mas sim dos direitos. É um curta completo, roteirizado com ternura, alegria, cores e magia. Foi escrito há mais de 14 anos, o que muda para os dias atuais? Como ele se materializou e quais os prêmios conquistados?

Thais Scabio – Escrevi assim que me formei na faculdade, eu precisava trabalhar na área do audiovisual e todos os trabalhos que conseguia eram gratuitos, tinha que ficar esperando uma oportunidade paga e eu tinha que sobreviver, então fui trabalhar como educadora social com crianças em situação de rua em Santo Amaro. Todas as experiências na vida são válidas e lá conheci esses meninos em situação de rua, muitas histórias e nasce a inspiração para “Barco de Papel” em homenagem aos meninos que faleceram numa chacina e a única lembrança dos que sobreviveram eram dos sapatos pretos brilhantes. No grupo tinham vários engraxates: guardei por 14 anos os escritos, queria uma animação de papel, porque o papel é uma coisa que se dissolve fácil e os sonhos daqueles meninos se dissolvem muito rápido, sonhos e vida se dissolvendo muito rápido. Eu não conseguia, do jeito que queria, não tinha tecnologia que eu queria em 2003 e nem pessoas. Conheci o Rodrigo Eba!, que era professor de animação do JAMAC na época, super parceiro e profissional, que topou fazer Finalizei e comecei a enviar para vários editais e ele nunca passava. Não parei de mandar e isso foi desde 2010 e em 2017 a SPCINE abriu um edital que tinha ações afirmativas de raça e gênero para a periferia. Isso também é resultado de uma luta, várias conversas com o SPCINE para que fosse concretizado. Com essa política pública tivemos resultados incríveis como o filme “Sem Asas”’ de Renata Martins da Zona Leste, São Matheus do qual também participei como 2ª assistência de direção e que em 2020 conquistou um dos prêmios mais importantes do Brasil, o Grande Prêmio de Cinema Brasileiro, na categoria curta de ficção e foi por políticas públicas, que consegui materializar “Barco de Papel”. Era um filme bem difícil de produzir e fiquei em dúvida Quando escrevi em 2004, a situação era bem diferente, mas infelizmente constato que a situação dos engraxates é um cenário constante da cidade,

“Barco de Papel” participou de muitos festivais e foi selecionado no Brasil e exterior – Argentina, Reino Unido, Alemanha – ele rodou o mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de ficção na mostra de Cinema Negro do Mato Grosso – Festival de Cinema Negro.

Expresso Periférico – No decorrer da sua carreira quais foram suas produções, os avanços e mudanças ocorridas que viabilizaram o protagonismo dos talentos periféricos?

Thais Scabio – Fiz muita produção, produzo desde 2003 na faculdade e em 2005/ 2006 comecei a produzir pela Cavalo Marinho, desde “websérie”, longa, média e curta metragem, não me lembro da quantidade, mas tem muita coisa e é isso, a democratização do audiovisual vem pelo digital. Na periferia nós fazemos cinema digital sim, nós temos a linguagem do cinema, luz, câmera e ação.

Com o trabalho de ações afirmativas na educação superior também surgiu muita gente boa e importante que faz cinema e tem um trabalho muito legal.

Existe uma cumplicidade entre o pessoal do audiovisual periférico. Um torce pelo sucesso do outro, não competimos entre nós. Quando um conquista um prêmio é como se todos nós ganhássemos. É uma rede que temos desde os anos 2000 e pouco e que acredito que fortaleceu o cinema periférico, porque um emprestava para o outro equipamento, luzes e daí fomos crescendo juntos.

Estamos em outro cenário, Agora vamos para festivais e vemos gente preta fazendo cinema, aquele monte de filme negro e periférico: muito orgulho. Tem o filme “Periféricu”: ganharam a Mostra de Cinema de Tiradentes em 2020, é um pessoal do Capão, filme LGBTQ+ e todos da periferia. Ficamos todos na mesma casa em Tiradentes porque estava com o Barco de Papel participando. Em um Festival tão elitista e ver eles ganhando foi muito legal, foi um momento especial em minha vida, foi lindo e estávamos torcendo muito.

Existe uma cumplicidade entre o pessoal do audiovisual periférico. Um torce pelo sucesso do outro, não competimos entre nós. Quando um conquista um prêmio é como se todos nós ganhássemos. É uma rede que temos desde os anos 2000 e pouco e que acredito que fortaleceu o cinema periférico, porque um emprestava para o outro equipamento, luzes e daí fomos crescendo juntos.

Expresso Periférico – O cinema tem uma tarefa educativa dentro dessa nossa sociedade desigual, injusta e que não respeita as diversidades, alcançando um número expressivo de pessoas, como popularizar, viabilizar o acesso a esse instrumento que pode ser de formação e de sensibilização, despertando conhecimento e pertencimento sobre nossas histórias?

Thais Scabio – Eu sempre levo nas palestras, gosto muito de trabalhar com o infantil, sou educadora também, tenho formação em educação e uma coisa que a gente não discute é o poder do audiovisual na educação, na alfabetização. O audiovisual, todo audiovisual principalmente num país como o nosso com um índice de analfabetismo muito grande, ele é responsável por uma formação educativa, de formação de opinião, de informação para a nossa sociedade.

Todo filme educa tanto para o bem quanto para mal e eu acho que a partir do momento em que estamos com uma câmera na mão temos que saber da responsabilidade que temos com ela, uma responsabilidade muito grande com as pessoas que estão assistindo, precisamos ter essa consciência, E vejo vários influenciadores, “youtubers” que começaram a entender seu papel e importância no audiovisual, de formação educativa da câmara.

Um professor meu falava que um médico quando erra, morre uma pessoa e destrói uma família, mas alguém da comunicação quando erra prejudica uma sociedade inteira. É o que vimos nas eleições. Penso muito nessa responsabilidade que eu tenho na mão de educar a população, não só crianças, mas a população em si quando estão vendo meu filme, estão vendo minha opinião, minha posição política, meu olhar que influencia muita gente, temos que nos preocupar com isso.

Expresso Periférico – Recentemente você liderou um processo de criação da TodesPlay, uma plataforma de streaming para divulgação exclusiva de conteúdos produzidos por profissionais negros: conta para os leitores do Expresso Periférico como funciona o acesso, seu conteúdo e os diferenciais?

Thais Scabio – Ela vem também para quebrar esse estereótipo, a maioria das plataformas de streaming de exibição são comandadas por homens brancos de classe alta, são eles que escolhem o que você vai assistir nessas plataformas. Esse olhar da elite branca e hetero está nas agendas de diversos streamings. Quando a gente cria uma plataforma para quebrar esse olhar trazendo uma diversidade de produção e com conteúdos identitários. Acredito ser uma plataforma muito importante porque a maioria das nossas produções negras e principalmente as periféricas são feitas, via de regra, sem recursos públicos. Uma pesquisa da ANCINE de 2018, apresentou que apenas 4% desses recursos públicos vão para diretores e diretoras negras. A maioria dos filmes produzidos na periferia são feitos sem verba pública, produção por nossa conta e depois não temos retorno, ninguém, ninguém paga por eles e geralmente o fim desses filmes é o Youtube e, para ter uma renda no Youtube demora e um outro ou outro consegue e, que ganha muito dinheiro, são essas plataformas.

Thais durante filmagem do filme “Barco de Papel” – Arquivo pessoal

Na Todesplay a proposta de trabalho é a divisão de lucro, é uma plataforma de assinatura e lá tem filmes do Brasil inteiro e fora também, de vários gêneros, está muito bonita e fico super orgulhosa. Nossa equipe principal é composta por várias regiões. Tem eu de São Paulo, Rafael do Pará, Uilton da Bahia e Rio, a Ana do Distrito Federal, daqui da nossa região da Cupecê, nossa assessora de imprensa, Darwin do Ceará e a Viviane Ferreira da Bahia, é um processo bem diverso e bem bonito, estou gostando muito. O valor de assinatura também deixamos popular para viabilizar o acesso das pessoas e ainda tem festivais e mostras e a parte de acesso gratuita. Viviane Ferreira é a CEO da Todesplay, presidente da APAN, cineasta e fez seu longa recentemente. Está sendo uma experiência bem importante, estou conhecendo mais dessa área tecnológica de streaming.

Ter duas mulheres negras periféricas no controle e na organização de uma plataforma do streaming é uma quebra de paradigmas que estamos enfrentando. As pessoas acham que é um projeto social, mas o projeto é um negócio para trazer renda para o audiovisual negro, para produzir de forma independente e ter seu retorno financeiro com os filmes que produzirem.

Expresso Periférico – Como você vê e pensa a possibilidade de parcerias com escolas públicas dos territórios, levando o cinema como ferramenta complementar para a educação?

Thais Scabio – Eu deixei a área da educação formal faz tempo. Penso que o sistema de educação, principalmente o pensamento das Secretarias, da direção, o comando ali é muito retrógrado. Ficou para trás do mundo atual. Tenho bastante dificuldade em fazer projeto atualmente dentro da escola. Faço projeto com escolas que já tem um trabalho anterior. É bem difícil chegar com o Mascate Cineclube em uma escola sem trabalho, exibir um filme e ir embora. Até banana já levamos na tela, porque não fez sentido estarmos ali. É incrível como o mesmo aluno na escola é uma coisa e na comunidade é outra.”

Expresso Periférico – Por fim, como a pandemia do Coronavírus afeta as produções audiovisuais e quais as alternativas para o seguimento, considerando que para 2021 não se apresenta pelas esferas públicas e seus responsáveis, perspectivas efetivas de medidas que possam conter sua evolução e acolher suas vítimas?

Thais Scabio – Afeta, principalmente as produções grandes, que tem muita gente envolvida. O cinema é uma área coletiva, não tem como não aglomerar. As grandes produções foram muito mais afetadas, nós produzimos com poucas pessoas porque não temos grana para pagar muita gente e já conhecíamos e fazíamos muita coisa online. Em 2012 eu o Giba editamos um filme para um amigo que estava na Califórnia, já tínhamos esse home office audiovisual (…rsrsrs…) as reuniões da APAN já fazíamos “ online” com representantes do Brasil inteiro pelo Skype, pra gente foi fácil se adaptar. Lamentamos a interrupção das exibições do Mascate, paramos o Cinema na Rua porque as pessoas se aglomeram. Mas as alternativas que se apresentam para o setor, são as apresentações “online” que, alcançam mais pessoas, conseguimos interagir e conversar com muita gente, na última exibição “ online” do Mascate, tínhamos público até em Moçambique.

Este post foi publicado em: Entrevista

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Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, Letras, pela Faculdade Diadema. Pós-Graduado em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André. Andante das ruas da Cidade Ademar e de toda São Paulo e apaixonado pelas comidas de boteco e futebol, principalmente futebol de várzea.

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