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Moradores de rua: números de pessoas morando nas ruas aumentam a cada dia

“No nosso caso, queríamos um lugar para ficar sossegado, não debaixo de uma lona. Nós não dormimos direito, pois não sabemos se vamos acordar no dia seguinte, entendeu? Já vi várias pessoas morrerem queimadas”, afirmou tristemente segurando um cigarro e olhando o que restou de sua barraca e seus poucos pertences em baixo de uma árvore.(Depoimento do morador de rua Aguinaldo de Jesus de Oliveira)

No inicio de fevereiro o ato do padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua foi destaque na imprensa por quebrar à marretadas os blocos de paralelepípedos debaixo do elevado da Zona Leste, para que moradores de rua pudessem se alocar no local. O ato do padre revela o aumento dos moradores de rua por toda a cidade de São Paulo. A última pesquisa de 2019 realizada pela FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) revelou 25 mil pessoas vivendo nas ruas, deste número, 3% são crianças, ou seja, cerca de mil crianças.

A colocação de blocos de pedras debaixo dos viadutos não é invenção do prefeito Bruno Covas (PSDB), outras gestões já praticavam a mesma política em bairros nobres, como no Ibirapuera, onde em todos os viadutos existem estas mesmas pedras para que os moradores não fiquem no local há décadas, e em outras áreas nobres.

Cidade Ademar – A pesquisa de 2019 revela que, enquanto a população de São Paulo cresce, em média, 0,7% ao ano, o número de moradores de rua aumenta 4,1%. Na região da Cidade Ademar, o número de moradores de rua varia de acordo com a estação do ano. A informação foi passada por alguns agentes da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social que atua na região em parceria com a ONG Instituto Social Santa Lucia. “Não podemos afirmar ao certo o número de pessoas, mas varia entre 200 a 600 pessoas, entre a região da Cidade Ademar e Pedreira”, comentou um agente que preferiu não se identificar.

Por meio do Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS), a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) realiza abordagens e busca ativa, visando identificar a incidência de pessoas ou famílias em situação de rua e que utilizam espaços públicos como meio de moradia e de sobrevivência. Estes agentes passam pelos locais todos os dias e mapeiam as áreas onde os moradores estão com suas barracas para encaminhá-los ao abrigo.

O Rapa da Prefeitura – Ainda no mês de dezembro de 2020, a reportagem do jornal O Bairro estava passando pela Rua Engenheiro Emílio Saad e flagrou o momento em que um veículo com funcionários da SEAS que acompanhavam um caminhão que recolheria todos os pertences de um morador de rua que estava no local.  Ao ver a reportagem do jornal O Bairro, os funcionários que estavam no caminhão que recolheria que recolheria os pertences ficaram intimidados e foram embora na sequência.

Caminhão da prefeitura desistiu de recolher os objetos dos moradores de rua ao ver a reportagem do jornal O Bairro

A mesma sorte não teve os moradores das barracas da Praça Haroldo Montagna, na Avenida Vereador João de Luca, ao lado da Casa Palma. A reportagem abordou um grupo de pessoas no último dia 26 de janeiro que estavam no local, onde cerca de 10 pessoas moram ali.

Aguinaldo de Jesus de Oliveira, mais conhecido como Guina, que trabalha com material reciclável não teve a mesma sorte, pois teve todos os seus pertences levados por funcionários da prefeitura horas antes. “Eu moro nesta praça aqui. Vivo coletando material de reciclagem e entulho. Moro nas ruas há 18 anos. Já passei por vários lugares e este é o estilo de vida, vivemos assim”, disse.

“Guina” e “Seu Jorge”, que trabalham com material reciclável.

Guina informou que tem passagem pela polícia e por isto nunca mais conseguiu emprego. Diz ainda que ele é o verdadeiro Guina, abordado em uma música dos Racionais MCs. “Já morei em várias regiões de São Paulo, este é o último lugar onde fiz a barraca. Já passamos por vários momentos difíceis, entendeu? Por mais que as pessoas sabem que somos moradores de rua, não atrapalhamos a vida de ninguém, ainda sim, tem gente que querem botar fogo em nossas barracas, querem nos agredir. As pessoas não dão mais oportunidades porque temos passagem pela polícia. Para eles, nós não somos ninguém, querem nos matar e exterminar da face da terra”, lamentou.

Guina diz não ter mais esperança. “No nosso caso, queríamos um lugar para ficar sossegado, não debaixo de uma lona. Nós não dormimos direito, pois não sabemos se vamos acordar no dia seguinte, entendeu? Já vi várias pessoas morrerem queimadas”, afirmou tristemente segurando um cigarro e olhando o que restou de sua barraca e seus poucos pertences em baixo de uma árvore.

Alimentos e pandemia – “Temos muitas pessoas que Deus toca no coração e doa roupas e alimentos”, comentou Guina. Segundo ele, durante esta pandemia da Covid-19, nenhum funcionário público foi até o local. “Não vi ninguém da prefeitura ou algum funcionário público nos passar alguma informação sobre isto. Só quem doa máscaras são os voluntários que vem nos trazer comida, entendeu?”, questionou.

Outro morador do local é Ronaldo Pereira de Souza, conhecido como Seu Jorge, por sua voz parecida com a do cantor. “A minha necessidade é uma lona e uma coberta, pois hoje os funcionários da prefeitura levaram até meus documentos. Quando eles veem até aqui, eles não deixam nada, levam tudo o que é nosso”, relatou.

Idosa aguarda na rua um lugar no albergue

Alguns não querem ir aos locais albergues oferecidos pela prefeitura, mas os que querem, não encontram vagas, é o caso de Marlene Sá Antônio, de 64 anos. No último dia 26 de janeiro, a reportagem a encontrou na mesma praça e ela não tinha mais lona onde dormia, pois acaba de ser recolhido pelos funcionários da prefeitura. “Moro na rua há três meses. Estava na casa da minha sobrinha e não deu certo não. Eles se separaram e cada um foi para um canto e fiquei sem onde morar. Meu filho faleceu e ele não pode me ajudar mais e eu sou sozinha”, disse.

Marlene de 64 anos aguarda na rua um local para ficar e Barbára de 28 anos, quer se tratar.

Segundo Marlene, a assistência social passou no local e prometeu ajudá-la. “Eles disseram que me ajudariam, mas me informaram que não tem vaga. Vou ficando por aqui e quando tiver uma vaga eles me levam. Estou na rua há três meses procurando uma vaga”, relatou tristemente.

Já a jovem que a acompanhava, Renata Barbara de 28 anos, informa que mora na rua há cinco anos. “Fui criada pelos meus avós, sou de Ribeirão Preto e vim para São Paulo com 18 anos. Casei e eu usava muito droga, cheirava muita cocaína e minha avó se desgostou e acabou falecendo. Vivíamos da aposentadoria do meu pai e me internei quando comecei a usar crack e infelizmente eu saí da clínica, abandonei meu filho e o pai dele e vim pra rua. Faz cinco anos que estou nesta vida deplorável”, lamentou.

Para Bárbara o vício é uma doença e gostaria de um tratamento. Para ela, viver na rua não é opção, pois é fácil ter contato com a droga. “Na rua tudo fica mais fácil para usar droga. Mas temos que conviver com os problemas. Eles tiram as nossas barracas; deixam a gente sem roupa, sem documentos, mas vamos montar de novo”, comentou.

Bárbara assume como usuária de droga e espera um dia mudar de vida. “Não somos apenas moradores de rua, alguns são usuários de drogas. Sou dependente química, eu não quero ir para um abrigo. Quero ir para uma clinica me tratar, quero mudar de vida, não para um abrigo e se for colocar todo mundo, não cabe. Quero um tratamento da dependência química. Tem que ter um projeto para nosso espaço. Sou dependente de algo. Ninguém vem para rua sem ter vício nenhum”, concluiu sua fala chorando perante sua situação.

Ouça o depoimento:

Este post foi publicado em: Cidade Ademar

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Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, Letras, pela Faculdade Diadema. Pós-Graduado em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André. Andante das ruas da Cidade Ademar e de toda São Paulo e apaixonado pelas comidas de boteco e futebol, principalmente futebol de várzea.

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