Futebol Amador, Gol Varzeano
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Com o futebol suspenso, jogadores da várzea sofrem efeitos da pandemia

Atletas chegavam a receber entre R$700 e R$1000 na Baixada Fluminense.

Não é só o futebol profissional que sofre os efeitos da pandemia do coronavírus. No Rio, enquanto a Ferj e clubes calculam o prejuízo financeiro e avaliam o momento de voltar às competições, os jogadores do futebol de várzea compartilham incertezas. Mesmo com orçamento muito menor do que o praticado no futebol profissional, ainda assim, o futebol amador é o que garante uma parte importante da renda de seus atletas, que agora sofrem com os campeonatos interrompidos.

Douglas Castanheira é um deles. Morador do município de São João de Meriti, antes da pandemia, ele projetava jogar três competições na Baixada Fluminense nos próximos meses, por times diferentes. Douglas foi jogador profissional, e defendeu clubes tradicionais do Rio, como o América, Portuguesa-RJ e Bonsucesso.

Hoje, tem 30 anos e está aposentado das competições oficiais, mas a experiência e a qualidade fazem dele um nome cobiçado na várzea. Consequentemente, é remunerado em boa parte dos jogos. Se os campeonatos estivessem em andamento, o jogador estima que estaria recebendo entre R$800 e R$1000 por mês. Dinheiro que faz falta pois, somado ao rendimento de entregador de uma rede de fast food, ajudava a sustentar suas três filhas.

– Tem uns times que pagam R$100, R$200, outros pagam R$150. Se for clássico, pode ser maior. A gente vai nivelando. Onde ajudar, onde pagar mais, a gente vai. Tem dia que a gente joga dois ou três jogos. Num domingo, já cheguei em casa com R$400, com 3 jogos. Infelizmente, a gente tá parado e o campeonato ajuda muito – lamentou.

O volante Jackson Junior foi outro que viu a renda diminuir. Ele jogava competições no Rio e em Minas. Uma delas, também em São de Meriti, estava na semifinal, quando os clubes pagam mais.

– A liga do Campo do Coqueiro já estava na fase semifinal. Eu estava recebendo a cada jogo uma ajuda para R$100 e podia aumentar. Tem a Champions também, que ia começar. É o campeonato em que a gente ganha o maior valor, porque o retorno existe para os clubes – contou.

Jackson Junior, de uniforme amarelo, na Baixada Champions League — Foto: Divulgação

Jackson Junior, de uniforme amarelo, na Baixada Champions League — Foto: Divulgação

A “Champions”, mencionada por Jackson é a Baixada Champions League, cujo nome é inspirado no torneio de clubes europeu. O campeonato de várzea virou referência na região devido ao alto valor do prêmio distribuído às melhores equipes, que chega a até R$100 mil reais. Premiação que é dividida entre jogadores, comissão técnica, diretores e funcionários dos times. E conta com equipes de nove cidades: São João, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita, Japeri, Magé e da capital.

A primeira edição do ano começaria em março, mas foi adiada em razão da pandemia. Os organizadores projetaram a nova estreia para 17 de maio, caso haja liberação do governo estadual e da prefeitura de São João de Meriti, onde serão disputadas as partidas. O decreto de isolamento do município, por enquanto, tem validade até o início de maio.

Mas é possível que essa estreia seja adiada novamente, porque a Baixada Fluminense é uma das regiões mais afetadas pelo coronavírus. Nova Iguaçu, com 224, e Duque de Caxias, com 217 e São João de Meriti, com 106, ocupam os 3º, 4º e 7º lugares no ranking de cidades com mais casos confirmados de infecção pela covid-19, respectivamente.

Partida da Baixada Champions League — Foto: Divulgação

Partida da Baixada Champions League — Foto: Divulgação

– A Baixada Champions League cria muitos empregos diretos, gera dinheiro para os clubes, bares, tem o pessoal do churrasquinho. O pessoal fica me cobrando uma posição, mas tenho que respeitar as autoridades – afirmou André Sousa, presidente da competição.

Os times que disputam os campeonatos recebem patrocínio de comerciantes e empresários de suas cidades e, com o investimento, conseguem atrair jogadores de bom nível. Muitos aposentados de clubes profissionais, como Douglas, e outros que ainda estão em atividade, e recorrem ao torneio para complementar a renda ou para garantir o sustento nos períodos em que estão sao contrato. Situação corriqueira, já que vários deles jogam em clubes pequenos, cujo calendário é curto.

A reportagem entrevistou um jogador que tem contrato com um clube profissional e disputa a Baixada Champions League, mas que pediu anonimato. Vamos chamá-lo de João. Como o campeonato estadual que vinha jogando está suspenso e o clube interrompeu os contratos, ele está sem receber do empregador e também não pode jogar na várzea.

Não se sabe quando o futebol vai voltar e até João e outros jogadores vão conviver com as incertezas provocada pela suspensão dos campeonatos. Não só as provocadas para conter os efeitos da pandemia, mas também as que se consolidaram no cotidiano do futebol brasileiro.

– O futebol amador é uma ajuda para manter a forma e também para a parte financeira. Com coronavírus fica mais difícil, imagina agora jogadores de times pequenos, em casa, têm conta para pagar, mas sem hipótese de ganhar dinheiro. R$50 reais para quem está desempregado faz diferença. Muitos não têm outra profissão e futebol te deixa vulnerável – disse João.

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Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, Letras, pela Faculdade Diadema. Pós-Graduado em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André. Professor da Rede Estadual de Ensino... Amante da literatura e simplesmente andante das ruas de São Paulo e apaixonado pelas comidas de boteco.

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